quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Capítulo Sessenta e Dois

RIO ACIMA


4.7. 1904.
Há dois dias desembarquei em São Gabriel da Cachoeira. Com o apoio de Cluny, superintendente do local, que conheci a bordo, eu organizo a próxima etapa da viagem. Comprei uma canoa com tolda de palmeira na popa. Contratei dois tapuios, índios sem tribos que fazem serviços para os sítios da região. Foram entregar mercadorias mais na frente, trazidas pelo batelão. Pedi para arranjar outra montaria e remadores. Não me imagino espremido entre bagagens e homens. Minha alma precisa de espaço e ando com um humor de lascar. Cansei de ver paisagens paradisíacas e habitantes fragilizados. Nada nesses sertões sinaliza o florescimento de uma sociedade próspera.
São Gabriel é o retrato fiel dessa desalentadora realidade. Criada por missões religiosas, há cerca de 250 anos, para o aldeamento dos nativos, a vila recebeu em 1763 um forte para proteger as fronteiras portuguesas dos domínios espanhóis. Com a forma de uma estrela, a construção ainda está de pé sobre o maciço de uma rocha perto da única rua da vila. A vegetação tomou conta da construção e os canhões de ferro viraram peças de museu. Cinco soldados vigiam quem sobe e desce o rio.
A maioria das casas está abandonada. Os poucos habitantes sobrevivem da pesca e do que conseguem extrair de um solo rochoso coberto por uma camada de húmus nada fértil. Conforme a exploração do “ouro negro” avança na região, os nativos recuam cada vez mais mata adentro, com medo da violência que acompanha esse avanço. Só saem para negociar caças e artefatos quando os batelões atracam na vila. Depois, desaparecem. E há a idílica natureza: o sinuoso rio Negro de águas límpidas e frescas, com suas ilhas verdes e suas quietas enseadas de areia branca ornadas por palmeiras e pedras. Tudo o mais é mata densa. Distante, a leste, há a imponente serra de Curicuriary, com suas encostas íngremes e, a oeste, a magistral serra do Cabary, modulada como uma mulher deitada com as mãos postas sobre o corpo e o rosto a mirar o céu. Mais um deslumbramento do mundo natural num cruel contraste que vela e desvela o desolador e modorrento cenário humano local.


Dias depois, Valentin parte de São Gabriel com duas montarias e a tripulação acrescida de três índios Desana, moradores de matas mais distantes, em passagem pela vila. Pilotam a canoa onde estão as bagagens da expedição e levam a reboque uma ubá.
O rio Negro corre sobre uma pedraria continuada e logo os navegantes enfrentam o fervedouro de ondas. A primeira montaria vence o rebojo espumante e alcança um remanso, enquanto a detrás rodopia e a ubá rebocada é lançada de um lado para outro. Numa manobra precisa, o piloto Desana escapa das investidas das correntezas. Mais na frente, rochas à flor da água se interpõem no caminho. O grupo contorna os cachopos num ziguezague ondeante. No final do trecho, procuram a margem para descansar. Em dia de sol forte, as águas escuras reluzem. Valentin tira fotografias.
Ao cair da tarde param em uma pequena praia para pernoitar. Penduram redes nos galhos de árvores, acedem fogueiras e servem-se do rancho providenciado em São Gabriel. Um som forte chega da mata. -- São macacos, diz Wenceslau, o tapuio, chefe da tripulação, que fala português e conversa com os outros nativos na Língua Geral. Com cara de coragem, Valentin enfrenta o medo de dormir no relento.
Pela manhã o comboio penetra o Uaupês de águas verde-escura. Ora avança em curso calmo, ora se atrasa nas águas bravas e rápidas. Bem antes do entardecer, Wenceslau sugere pousar. Exausto, mordido de pernilongos, Valentin acata a sugestão. Descobre no dia seguinte que tomou a atitude correta. Só depois de sete horas de pesada remada, encontram uma praia para atracar. Ali se acomodam. Um temporal desaba. A friagem chega. Os carapanãs não dão sossego. Piretros são acessos e os pensamentos do viajante vagam a falta de sentido das noites medonhas e dos dias estafantes vividos.

Copyright © 2013 by Maria Tereza O. S. Campos
Copyright de adaptação para Cinema e TV © 2005 by Maria Tereza O. S. Campos


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Capítulo Sessenta e Um

O PLANO


As cortinas cerradas, os móveis pesados e a fisionomia abatida da anfitriã dão ao ambiente um ar soturno. Sobre a mesa, um serviço de chá divide o espaço com uma garrafa de Porto. Carlota se serve de uma taça e bebe um gole farto.
-- Adoça o fel que sinto.
-- Passará, responde Catarina.
-- É uma agonia atroz.
-- Sinto muito, muito mesmo.
-- Não esquecerei seu apoio.
-- Há algo mais que eu possa fazer?
Carlota dá uma risada sarcástica.
-- Me ajudar matar o desgraçado e a meretriz.
-- Vamos pensar em algo que não chame uma desgraça maior.
-- Você é única, Catarina. Nada a espanta.
-- O que seria das figuras de linguagem sem as nossas emoções?
-- Mas meu ódio é real e clama por vingança.
-- Imagino que sim. Porém o feitiço jamais pode se voltar contra o feiticeiro. E há a possibilidade do Magistrado recuperar a lucidez.
-- Impossível. Homem acostumado à lascívia tem repúdio ao amor casto.
-- É um juiz, a sensatez não lhe faltará para sempre. Melhor do que ninguém ele sabe os riscos da situação.
-- Minha vontade é denunciar que tem uma teúda e manteúda.
-- O escândalo será seu também. Deve se poupar e proteger-se.
-- Recolho-me à dignidade do silêncio, enquanto ele se diverte. Que destino!
-- Ou recolhe-se à dignidade do seu silêncio e age.
-- O que posso fazer?
-- Disse denunciar esse triste acontecimento. Por que então não escreve para a seção A Pedidos dos Leitores pedindo providências contra as meretrizes?
O olhar triste de Carlota ganha um brilho diferente.
-- Fale-me mais.
-- Bom, é apenas uma ideia. Mas recomendo usar um pseudônimo masculino e no plural, para dar mais força a causa.
-- Um nome... Qual?
-- Ocorre-me Os Cruzados. O que acha?
-- Gosto, fala Carlota sorvendo perspectivas futuras com o olhar parado no nada: -- Denuncio o salafrário?
-- Apenas o mal e de modo impessoal. Algo como a necessidade de salvar a família das mundanas e as mulheres de bem dessa exposição degradante nas ruas.
A resposta lhe tira daquele estado e imprime vigor na voz
-- E acabar com os bordéis. Já ouviu falar da Ninon de Valoir?
-- Já.
-- A meretriz do magistrado saiu do antro dessa mestra da podridão.
-- O falatório também esvaziará esse estabelecimento. Quem irá querer correr o risco de se expor se os olhos de todos estiverem atentos aos hábitos alheios?
-- Precisaremos de muitas cartas para provocar esse efeito.
-- A mesma carta pode ser publicada em vários jornais. Depois, com algumas mãos-escrivãs, envie missivas para as redações só para alimentar a fogueira.
-- As mãos-escrivãs precisam assinar com o pseudônimo masculino?
-- Se quiserem.
-- Sei quem podem ser as escrivãs: as madres da Nossa Senhora das Grandes Causas. Muitas são letradas e a minha irmã é a Sóror. Falarei com ela.
-- Terá um exército, então! Contudo, instrua a Sóror para fazer dessa convocação uma iniciativa em prol dos bons costumes e não para atender ao seu pedido. Quanto menos gente souber que está por detrás da campanha, melhor será. 
-- Fique tranquila. Minha irmã é igual a você. Pensa como um homem.
-- Como ser diferente? Se não deciframos a esfinge, ela nos devora.
O humor de Carlota se altera e o desânimo se estampa no seu rosto.
-- Todo esse esforço será em vão. O mundo não vive sem as dissolutas.
-- Não pense nisso, mas somente que tentar está dentro das suas possibilidades.
-- E se não der certo?
-- Sinto muito, querida, só me ocorre esta ideia para ajudá-la.
A confiança retorna à anfitriã.
-- Melhor essa ideia do que nenhuma. Pode escrever a carta para o jornal?
-- Posso. Mas precisamos de ajuda para a questão comercial.
-- Um homem?
-- Acima de qualquer suspeita, para ir ao jornal e expedir as cartas.
-- Não confiaria em nenhum dos meus conhecidos.
-- Acho que com um agrado posso conseguir esse ajudante do bem.
-- Por favor, tente e ponha na minha conta. Pagarei o que for preciso para botar o magistrado acabrunhado aqui em casa e fazer a marafona conhecer o inferno.
Carlota bebe e o prazer despertado pela vingança urdida se confunde com o sabor do Porto. Catarina também saboreia seu chá, sentindo o gosto antecipado da vitória. Conseguiu o que queria: um escudo para o seu plano e mãos santas para executá-lo. Acredita que as cartas despertarão as redações dos jornais para a questão do meretrício e os jornalistas agitarão a opinião pública a ponto de criar um constrangimento que iniba a presença dos respectivos maridos no bordel de Ninon de Valoir. A animação volta a palpitar o seu peito com a perspectiva de tirar Theodoro da cama alheia.

Copyright © 2013 by Maria Tereza O. S. Campos
Copyright de adaptação para Cinema e TV © 2005 by Maria Tereza O. S. Campos

Capítulo Sessenta

A RODA DO HUMOR


De noite Catarina recebe o marido, bela, fresca e serena. Tudo transcorre como o esperado de uma esposa exemplar: sem silêncios enigmáticos, nem faíscas de raiva no olhar e muito menos sem cenhos franzidos ou de mau humor. Assim o casal se recolhe ao leito e nesse clima acolhedor os primeiros movimentos do bebê são relatados.  Theodoro se aflige. Desgasta-o a ideia de uma vida tomando espaço no corpo de outra e tem receios de como será essa vida, se nascerá saudável e se sentirá por ela a afinidade que espera ter. Não vê a hora de isso tudo acabar e de ter o bebê no berço. 
-- Mexeu como, forte ou fraco?
-- Leve como cócegas ou como uma borboleta batendo asas dentro de mim.
A resposta o arrepia e o preocupa.
-- Será que é uma menina?
-- Por que não um menino?
-- Melhor falar com Dr. Eugênio.
-- Ou com aquela médica. Não que vir comigo?
-- Será preciso?
-- Apreciaria a sua companhia.
-- Vamos ver. Estou atolado de compromissos.
-- E eu cansada de me mover sozinha por tudo quanto é lugar.
Theodoro se surpreende diante da inusitada mudança de humor.
-- É uma mulher moderna!
-- Que se sente solitária.
-- Chame a sua mãe para ficar com você, enquanto mamãe estiver fora.
A sugestão tumultua mais as emoções e a raiva chispa no olhar e na voz.
-- Não chamarei ninguém.
-- Isso são modos?
-- De uma mulher grávida, cheia de amor e assustada em ter o marido longe dela.
-- Mas estou aqui!
-- Porém distante. Preciso do concreto do seu amor.
-- Já o tem.
-- Como, se se tornou um pai, um irmão, para mim?
-- Já conversamos sobre isso.
-- Não há razão para sacrificar nossa paixão. A natureza é sábia.
-- E nós, prudentes. Para que correr riscos desnecessários? Inclusive, acho melhor eu passar a dormir no outro quarto, diz e se levanta da cama.
-- Não se atreva, ameaça Catarina se levantando também.
-- Deixe de se comportar como uma criança e volte para a cama.
-- Não me imponha mais este afastamento.
-- Não há afastamento algum, apenas cuidados. Mexo-me demais quando durmo e temo machucar você e o bebê. Está enorme!
-- Enorme como?
-- Como uma mulher grávida, ora! E anda muito sensível, o que não é nada bom.
Catarina se controla e tentar contornar os efeitos dos seus queixumes.
-- Desculpa. É a emoção da maternidade. Turva minha sensatez.
-- Outra razão para se cuidar melhor. Inclusive deve evitar sair e ter contato com a sujeira das ruas. Poupe-se e poupará o bebê.  
-- Como assim?
-- Disse para ficar em casa. Depois do nascimento do bebê, volte à Ordem da Estrela e aos seus compromissos sociais, antes não.
A recomendação a assusta e evoca a amante do marido.
-- Mas por que, se ando em lugares asseados e sinto-me bem?
-- Combinamos de ser discretos e você anuncia sua gravidez aos quatros ventos.
-- Não comentei nada com ninguém.
-- Mas já está visível. Daqui a pouco a notícia alcança Portugal.
-- Qual o problema? Já saí da fase do risco maior.
-- Nada é seguro até o bebê nascer.
-- Theo!
-- Não insista e volte para cama.
-- Não.
-- Catarina.
-- Será preciso tanto cuidado? – ela indaga em tom doce.
-- Da sua saúde depende a do bebê, não é assim que o Dr. Eugênio diz?
-- É.
-- Pois então?
-- Mas pode ser diferente, insiste.
-- Tudo muda, menos a maternidade. Ou não quer ser uma mãe virtuosa?
-- Quero.
-- Deite-se, então.
Ajuda-a se acomodar a e a beija na testa.
-- Durma bem
-- Você também
Tão logo o marido deixa o quarto. Catarina chora e reza entre soluços: Estrela-guia, não me abandone! Ajude-me a ter minha vida e o meu marido de volta. A reza não a consola, nem o sono chega. No entanto, a insônia favorece o plano que concretiza na tarde do dia seguinte. Visita Carlota Abreu Vaz, a irmã da Ordem da Estrela traída pelo marido.

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Capítulo Cinquenta e Nove

PELE DO AMOR


Catarina cheira o conteúdo do frasco entregue por Adamastor, atendente do perfumista. Reconhece o aroma-denúncia da infidelidade conjugal: um floral ao mesmo tempo leve e arrebatador. Não se contém. Passa uma gota no pulso, sopra e cheira a pele. Impossível desdenhar o aroma. Trata-se da mais perfeita metáfora da paixão. A rival não é uma qualquer e vem atormentar a sua vida justamente quando se tornou uma profusão de montes, uma elefoa. Como defender seu casamento nessas condições? 
-- Qual o nome desse perfume?
-- Peau d’ amour!
Sente-se como se alvejada por um soco na barriga e, no instante seguinte, percebe que não é apenas uma sensação: o bebê se mexeu! A raiva de não ter podido viver em júbilo essa emoção se volta contra Reverbel: Imperdoável não ter me oferecido a Pele do Amor. Um ar de indiferença colore seu rosto.
-- Nunca vi este perfume na loja.
-- É uma fórmula exclusiva.
Avolumam-se a sensação de desprestígio e a raiva. Afetada, senta-se na cadeira da escrivaninha e se esforça para não revelar sua turbulência emocional. 
-- Que interessante! E quem costuma encomendar?
-- Uma única pessoa.
-- O nome.
-- Madame... É perigoso revelar essa identidade.
-- Imagino o quanto.
Abre a gaveta de seus objetos pessoais, manuseia dinheiro guardado ali e desliza o montante dentro de um envelope sobre a mesa, em direção ao atendente.
-- Sente-se mais confortável em saber que segredos são eternos para mim?
-- Muito. Muitíssimo, mas há um porém. A pessoa é estimadíssima de muitos.
-- Do alto mundo, suponho?
-- Do mais seleto olimpo.
-- Solteira?
-- Viúva.
-- Possui filhos?
-- Não saberia dizer.
-- É nova?
-- Não como um botão de rosa.
-- Desfolhada?
-- Digamos belamente desabrochada.
Catarina não consegue identificar entre o seu círculo de relacionamento quem possa se encaixar na descrição.
-- Frequenta a loja?
-- Mui raramente e quando não há ninguém, exceto o senhor Reverbel e eu. Mas nem apareço. Fico nos fundos esperando o final dos experimentos pra arrumar tudo.
-- Experimentos?
-- É. A pessoa gosta de pensar em diferentes combinações de perfumes e óleos.
A raiva lateja em Catarina.
-- Usa outras fórmulas?
-- Sim e suas pupilas também.
-- É uma preceptora?
-- Bem... Como direi?
-- É ou não?
-- Pergunta difícil, madame!
-- Diga logo: quem é essa mulher?
Os olhos do atendente abaixam-se e os lábios balbuciam:
-- Ninon de Valoir.
Catarina se lembra dos comentários acerca da francesa dona do bordel de luxo.
-- A dona daquele local?
O atendente confirma com um balançar de cabeça. E a madame compreende o tamanho do revés da sua fortuna, sem entender a razão, se é bela, possui o dom de saber se vestir, andar, falar, olhar, sorrir e, ainda por cima, sabe pensar sem emoção e amar com ardor. Por que lhe abate tão cruel destino? Terá de viver igual a tantas outras? Pelo menos não como Carlota Abreu Vaz, mas tem tudo para ser como a queridíssima... Ah, deixa isso para lá. São falatórios acerca da amante francês do prefeito. Um tremor percorre seu corpo. Acha que o bebê se mexeu novamente e quer ficar sozinha. Toca a sineta de prata disposta sobre a escrivaninha.
-- Já tomei muito do seu tempo. Esteja à vontade para partir.
-- Peço que cuide bem da informação. O senhor Reverbel jamais entenderia minha dedicação à madame.
-- Não há com que se preocupar. Procuro o senhor se precisar de algo mais.
Josefa chega e acompanha o homem até a porta da rua.
Catarina acaricia a barriga: Despertou de susto, não foi, meu bebê? Mas fique tranquilo, vamos sobreviver. Poderia ser pior. Mundanas não entram no Palácio, não pela porta da frente, por onde iremos adentrar... Cheira o pulso: Peau d´amour! O que farei para tirar Theo de você, Ninon de Valoir? O que farei?

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Capítulo Cinquenta e Oito

AO LONGO DO RIO NEGRO 


20.06.1904.
Embarquei hoje no Vapor Solimões com destino ao alto rio Negro. Aumentei minha bagagem. Em um baú, levo tabaco, miçangas coloridas, anzóis, facas e pequenos espelhos. Em outro, seguem peças de algodão estampado em cores vivas, apetrechos de costura e ainda barras de sabão. São itens apreciados pelos índios e favorecem a aproximação com eles.
Os passageiros são formados em grande parte por estrangeiros, que retornam para a Colômbia ou Venezuela; outros são brasileiros, entre eles funcionários do governo, que desembarcarão ao longo do percurso. Algumas esposas acompanham os maridos. E há também índios, a maioria em serviço no vapor.   
Deixei minhas coisas na cabine e abri minha rede no espaço do segundo andar. O céu está estrelado. Tenho tido dificuldade para dormir. Lembranças surgem no silêncio da noite. E fico a divagar se a geratriz das minhas desilusões está bem e em paz consigo mesma. Outras vezes fecho os olhos e vejo a preguiça morta. Nunca gostei de caçadas, nem entendo como alguém pode apreciar bicho empalhado. No olhar do animal, reconheço o terror fixado do seu encontro com a morte.

22.06.1904
Ao amanhecer acordei com a visão das pequenas casas de Moura alinhadas à margem do rio. Meu vizinho de rede, o senhor Ricardo Cluny, comentou que mais ao norte, já nas terras do município de Boa Vista, há índios bravos da tribo Uamari. Rondam as margens do rio Negro, por época das secas, para pegar tartaruga. Recentemente mantiveram Moura sitiada por vários dias, até a chegada de soldados de Manaus. A população refugiou-se numa ilha. Outros conflitos da tribo são com os exploradores de ouro da região e há contendas também no campo da diplomacia internacional. O Brasil disputa com a Inglaterra parte desse território.  Já sobre os ataques dos exploradores de seringas aos indígenas, Cluny se abstém de falar. Mas deixa escapar a impossibilidade de garantir a ordem e a lei nos rincões da Amazônia.
O senhor Cluny é superintendente de São Gabriel, vila sede do governo no alto do rio Negro. Ao se inteirar dos meus planos de viagem, me deu notícias de Grünberg. Juntos fizeram este percurso no ano passado e, há um mês, o etnólogo o visitou a caminho do Curicuriary, com planos de seguir depois para o Tiquiê. Para encontrá-lo, aconselhou-me ir direto pelo rio Uaupês e se prontificou a me ajudar na organização da viagem, em São Gabriel. É o que farei.

24.06.1904
Conheci ontem as marcas coletivas da malária e a desolação da antiga capital da Amazonas. Barcellos perdeu essa condição nos fins do século XVIII e desde então muitos dos seus habitantes. É o bucólico abandonado e a fé a se personificar em uma singela igreja de teto triangular de onde se ergue uma alta torre. Em frente há um pátio, com escadas que mergulham as águas. Os seringais da região exportam para cá o maior número de combalidos pelas febres tropicais de onde fazem pouso temporário, ou para sempre, no cemitério local. A doença se projeta dos olhos cavos e rostos magros. Um cenário humano triste e entristecedor.

25.06.1904
Estamos parados na vila de Santa Izabel, um entreposto comercial, onde um português parece ser o senhor local. Um batelão aguardava por nós. Pilotada por indígenas, acompanhará o Solimões, com cargas para as vilas do alto rio Negro.

29.06.1904
Logo acima de Santa Isabel, enfrentamos rebojos à margem de rochedos. Ondeantes e espumantes, as águas rugiam. A sensação era de que íamos ser lançados sobre as rochas pela correnteza. O batelão chegava a se descolar das águas. Por duas horas, o Solimões tentou atravessar a fúria do rio, mas foi vencido e recuou. Com mais vapor, vencemos o sorvedouro e alcançamos águas mais calmas.
Chegamos de tarde na parada final do Solimões. Desse ponto em diante, apenas embarcações menores sobem o rio ou os batelões. Seguiremos em um. O local é um entreposto comercial às margens do sítio Trindade. Possui ponte de desembarque e casa de armazenagem. Muitos índios estavam no local. Alguns traziam ou esperavam carga, outros vendiam caças. São homens de compleição forte, porém baixos. Também vi um grupo recém-trazido do rio Uaupês para trabalhar no sítio Trindade. Tinham um olhar admirado e carregavam em cestos seus pertences, como um diadema adornado com penas coloridas e outras brancas que pendiam em calda da parte detrás. Um jovem vestiu o adorno e eu o fotografei. Retribuí com dinheiro e ele pediu cigarro para Cluny. Tabaco e cachaça são um pedido constante dos nativos nas paradas.

30.06.1904
Viajamos o dia inteiro em águas aceleradas. Paramos para pernoitar em uma margem inundada. Grossas cordas feitas de piaçaba prendem os batelões às árvores. Depois de tantos dias de convivência, o silêncio pesa e é quebrado neste instante pela triste melodia cantada por um espanhol ao som do seu violão. Uma mulher acocorada entre sacos tem seus filhos ao redor de si. Os pequenos se revezam no colo dela. Às vezes um piolho é achado; só de ver coço a cabeça. Olho para o céu estrelado e sinto falta de uma estrela inesquecível.

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Capítulo Cinquenta e Sete

NOVO ALIADO


A sensação de estar no limiar do adormecimento acomete Catarina varias vezes durante a noite. Abre os olhos e vê o lado vazio da cama. As pálpebras se fecham, adormece. Quando acorda de vez, Theodoro dorme e o dia amanhece. Vagarosamente sai da cama. No quarto de vestir, cheira primeiro o casaco, depois a camisa dele. Sente o perfume em ambos: Ó, minha Estrela-guia. As lágrimas nascem e rolam pelo rosto. Joga a roupa no chão e rapidamente as pega. Não pode descuidar da sua contraprova. Pendura o casaco e põe a camisa sobre uma cadeira. Tempo depois, Theodoro beija a sua testa à mesa do café.
-- Minha rainha, perdoe-me pelo atraso.
-- Theo, você chegou de manhã!
-- Imagina o que aconteceu...
-- Seja o que for, deveria ter me avisado, diz interrompendo a fala do marido.
-- Posso explicar?
-- Fiquei muito preocupada, responde em tom de voz mais cordato.
-- Passei a noite no gabinete.
-- Por quê?
-- Precisei escrever um relatório...
-- Por que não aqui em casa?
-- Era o que devia ter feito. Mas aí deitei no sofá pra descansar um instante só e caí no sono. Quando acordei, já era de madrugada.
Temendo se descontrolar com o que julga ser mentira e cair do seu pedestal de rainha, Catarina se retira. Theodoro termina o café antes de ir ao seu encontro no quarto.
-- Está mais calma?
-- Estou triste.
-- Não se abata por bobeira.
-- Sinto saudades do seu amor.
-- Mas o tem.
-- Sem as nossas noites dulcíssimas.
-- Agora você é mãe.
-- E também sua esposa-amante.
-- Catarina, por favor. Concentre-se no bebê.
-- Não engravidei para ter você longe de mim, diz de maneira ríspida.
-- Sem exaltações.
-- Mas Theo...
-- O que? Dr. Eugênio não recomendou repouso e cuidados de toda espécie.
-- Sim, mas...
-- Sem mais e nem menos. Conto com você. Facilite as coisas para mim.
-- Está certo.
-- Esta é a minha mulher, diz, beija-a na testa e vai trabalhar.
Nenhuma sirigaita irá me destronar, sentencia Catarina. Desgarra-se das mágoas e se prepara para a luta. Veste-se, põe na sacola o casaco e a camisa do marido, abastece um envelope com dinheiro e parte para a loja do perfumista.
O atendente bendiz a sorte do patrão quando a vê entrar.
-- Bem-vinda, madame, em que posso lhe ajudar?
-- O senhor Reverbel está?
-- Infelizmente, não.
-- Parece que estou sem sorte.
-- Mas me deixou instruções, caso se desencontrasse da senhora. Pediu para eu entregar a amostra e dizer que não tem como providenciar a encomenda.
-- Que pena!
Adamastor pega o embrulho.
-- Aqui está.
-- Obrigada.
-- Disponha.
-- Responda-me uma curiosidade. Há quanto anos trabalha no ramo?
-- Cresci praticamente entre essências.
-- Imagino que conheça todas.
-- Até no ar sei distinguir um aroma do outro.
-- Estarei na frente de um futuro perfumista com uma loja só para si?
-- Que Oxalá ouça a madame.
-- Estou certa de que ouvirá. Basta pedir com fervor, trabalhar com afinco e demonstrar o quão preparado está, para que as portas lhe sejam abertas.
-- Posso lhe ser útil em algo mais?
Catarina retira da sacola o casaco e a camisa de Theodoro e os estende.
-- Consegue dizer que fragrância exala nessas roupas e se foi feita aqui?
O atendente aspira algumas vezes.
-- Dê-me alguns dias e farei uma fórmula. Talvez a madame reconheça nela o aroma procurado.
-- Acha então que o produto é da loja?
-- Bem provável. Em que endereço me apresento?
-- Rua São Clemente 426. Quando poderei apreciar a fórmula?
-- Se tiver urgência, reduzo o tempo para a combinação descansar sem prejuízo do resultado final, é claro.
Catarina sorri, retira o envelope da bolsa e o estende.
-- É muito gentil. Isso é para o senhor.
-- Madame, não precisa.
-- Como não? Fará um trabalho e quero contribuir para a sua futura loja.
Adamastor sorri; guarda o envelope no bolso e exibe nova cortesia.
-- Acredito que irá querer discrição.
-- É sempre conveniente, responde Catarina satisfeita em ter dado um pequeno grande passo em prol dos seus interesses. 

Copyright © 2013 by Maria Tereza O. S. Campos
Copyright de adaptação para Cinema e TV © 2005 by Maria Tereza O. S. Campos

Capítulo Cinquenta e Seis

DA PREGUIÇA


Um bonde elétrico desliza pelos trilhos do centro de Manaus rumo aos arrabaldes da cidade. Valentin está entre os passageiros. Ao longo do deslocamento, rareiam-se as moradias e a exuberante vegetação torna-se mais contínua até imperar na paisagem. O bonde penetra a floresta e, pouco a pouco, aproxima-se da Estação das Flores, ponto final de onde repetirá o itinerário algumas vezes mais durante o dia.
O local reproduz uma aldeia indígena. Bebidas, alimentos, mudas de flores, cestas e outros artigos são vendidos em ocas dispostas em um círculo. Pequenas mesas e bancos de madeira ocupam o pátio central. Os passageiros se espalham pelo espaço. Estão ali para passear, comprar produtos, caçar ou coletar espécies da flora.  
Valentin visita as ocas, escuta conversas e troca palavras com os atendentes. Fotografa a Estação. De foto em foto, penetra a mata de profundezas escondidas pela massa de galhos entrelaçados e abarrotados de folhagens e pedúnculos.
Durante o percurso, o olhar intervém na realidade. Foca o que acha atrativo e ignora o de apreciação incerta para os editores. Captada pela chapa fotográfica, a parte torna-se o todo: revela uma região de belas borboletas, de folhagens luzidias e de frutos, favas e sementes, em formas e texturas exóticas. Fica de fora a vegetação combalida por formigas ou anemiada por fungos, brocas e pulgões. Atraídos pela suculenta fartura da decomposição vegetal, insetos perturbam os sentidos, exacerbam a pele, e Valentin imagina o que a viagem lhe reserva: o contato com a natureza rasgada de fantasias, com cada espécie a comer sua presa e sendo comida por seu predador.
Prossegue a exploração em passos cautelosos. De quando em quando, um grasnar próximo, um estalar atrás, um ruflar ao lado, um farfalhar em frente movimentam seu rosto em alerta. Ouve um espocar seco e a vida agita-se no emaranhamento do reino vegetal. Com receio de tiros perdidos, recua na sua incursão por esse corpo quente e úmido, de odor ora fresco, ora forte, e de rumor quase sempre invisível.
Um passageiro do bonde surge com uma espingarda pousada no ombro e um saco na mão. Cumprimenta-o e se põe ao lado. Diz o nome de algumas árvores e identifica o canto de pássaros. De repente mira um alvo e atira. Um gemido corta o ar enquanto algo escuro cai da árvore. 
-- O que foi?
-- Venha ver.
Ao encalço do homem, Valentin descobre uma preguiça que agoniza com seu olhar infantil e as mãos estendidas.
-- Mas por que atirou?
-- Ora vivo disso.
-- O bico tá sofrendo. Mata de uma vez, então.
-- Morre já. Outro tiro estraga a pele. Quero para empalhar.
Valentin se contém para não esmurrar o caçador. E se ajoelha sem saber o que fazer para confortar a agonia do bicho. O gemido do animal torna-se fraco e se extingue. Ele ali ajoelhado, o atirador de pé e a preguiça morta no chão formam um quadro de assombros diferentes. Valentin se levanta e anda sem dar atenção ao que o outro diz.
-- Moço, é só um bicho.
Hora depois, no bonde, o atirador comenta com um passageiro sobre o estranho sujeito sentado no fundo do bonde, com a máquina fotográfica.

Copyright © 2013 by Maria Tereza O. S. Campos
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