terça-feira, 7 de abril de 2015

Capítulo Trinta e Três

DO SENADO À PRAÇA DA REPÚBLICA


Herculano chega ao Senado e se dirige a uma das galerias do segundo andar. O recinto lembra um camarote e já está ocupado por alguns civis e pelo Capitão Brito, ex-colega da Escola Militar da Praia Vermelha e atualmente professor da Escola Preparatória e de Tática de Realengo. Herculano troca continência de modo formal com Brito e se abeira do balcão. Como raio, sua visão incide sobre Theodoro que conversa com Duarte, rente à balaustrada que divide o espaço da galeria e o das bancadas dos senadores. Herculano se afasta do balcão e aguarda sentado o início da sessão.
Aberto os trabalhos, a crítica à velocidade com que a Casa tem aprovado projetos de lei de interesse do Governo é seguida pelo questionamento de se criar a Justiça Sanitária.  Argumentos embasados na Carta Magna se sucedem e rebatem a ideia de que administrar a higiene urbana necessita de órgão especial. A conclusão se expressa.
-- A organização desse Juízo não cabe dentro da nossa Constituição. É um órgão dispensável e a sua aprovação uma excrecência, uma violência aos princípios de uma Justiça para todos os cidadãos e para todas as causas.
Aplausos são dados às galerias e a percepção da dificuldade para aprovar a Lei entrecruza-se dos olhares da base aliada às bancadas. O senador Duarte toma a palavra.
-- Há anos testemunhamos os esforços dos diversos diretores de Saúde Pública para combater as epidemias que abatem a nossa gente e país. E todos, sem exceção, foram vencidos pela anarquia com que são tratadas as medidas destinadas a exterminar as causas das doenças. É essa indisciplina que torna especial a matéria e impõe a criação de uma Justiça específica. Só assim as autoridades poderão sanear a Capital Federal. 
Vaias vibram nas galerias. Theodoro não demonstra tensão e, no andar de cima, Herculano se abstém de comentários com o grupo ao redor.
Lauro Sodré, de 45 anos, militar de formação, político de profissão e ex-governador do Pará, ocupa a tribuna. Refuta o ponto de vista de Duarte e aprofunda a critica aos projetos votados em caráter de urgência sem a análise devida.
-- Como autorizar o Governo a expedir uma série de regulamentos que nenhum de nós é capaz de dizer até onde as atribuições conferidas ao Poder Executivo podem levá-lo; até aonde o arbítrio desse poder, que não possui função de legislar, pode ir, no exercício de uma atribuição que não é sua e sim do Congresso Federal. Senhores, se nós andássemos a catar modos de recomendar mal a República aos olhos da opinião pública, de granjear para Ela as mais sérias e profundas antipatias, o que é um perigo nessa face inicial de regime, se andássemos a buscar meios para impopularizar a forma republicana, que mal está criando raízes no fundo da consciência nacional, eu não sei de meio mais fecundo que esse projeto sanitário.
Da bancada, Glicério interrompe Sodré.
-- Em São Paulo, há uma lei semelhante e a República não é odiada.
-- Desconheço tal fato e estou certo de que lá uma lei como essa não entraria para apreciação sem veementes protestos e nem passaria sem uma explosão de revolta.
-- Nem se exige plenos poderes para ser prefeito, nem nega aos parlamentares o direito de estudar as questões como aqui, acrescenta outro oposicionista.
-- Nossa Casa não nega nada. Haja vista o atual debate. 
-- Se não nega, Vossa Excelência concorda com o adiamento da votação?
-- Não, não concordo, porque defendo o início imediato do saneamento da Capital depois de tanto já termos discutido os diversos pontos desse projeto.
-- É um escárnio chamar isso de discussão.
-- Porque não há o que debater. Os trabalhos da Diretoria de Saúde Pública não podem ser constrangidos pelo receio parlamentar de se estranhar ao espírito do eleitor que resiste a adotar posturas higiênicas e de conservação predial.
-- Não é esse o caso e sim defender nosso papel de bem aconselhar o governo no estrito dos valores republicanos.
-- Sem dar forças ditatoriais aos homens do governo, grita outro senador.
-- Lastimo que pense assim, nobre colega, pois investimos o Prefeito do poder que pôs em dia o pagamento dos servidores, recuperou o crédito municipal e imprimiu eficiência aos serviços que há meses beneficia nossa gente granjeia louvores públicos.
Aplausos se misturam aos brados de morra a lei. O senador Sodré fala de novo.
– Não podemos abdicar de nosso papel de legislar nem nos cabe arbitrar sobre o modo de viver e morar da população, e muito menos decretar a demolição de imóveis combalidos. Isso é um atentado ao livre-arbítrio e ao direito da propriedade privada.
-- Vossa excelência me comove, mas não aos ratos e mosquitos. Anárquicos, desrespeitam direitos, democráticos, espalham a doença sem olhar a quem.
Risadas soam, ânimos se acirram e a vacina contra varíola é posta em discussão. Duarte propõe retirá-la da pauta do dia e iniciar a votação dos projetos debatidos. Moção aceita, a votação se inicia, em votos abertos. A cada sim ouvido fortalece a confiança de Theodoro no resultado aspirado.  
Herculano deixa a galeria após ocorrer o voto que decide a aprovação da Justiça Sanitária. O secretário de governo também não espera o final da sessão e sai. Durante o trajeto, com um aceno de cabeça, cumprimenta Silva Castro, o chefe de Polícia, postado no fundo do ambiente, que atribui a saída à intenção em dar logo a notícia ao presidente. Decide se certificar da direção dos seus passos.
Theodoro adentra o vestíbulo e avista Herculano descer a escada. Deduz de onde o conhece e se sente instigado a comprovar sua dedução. Silva Castro para, atrás de uma coluna, e o militar lastima consigo mesmo o encontro que quis evitar.  A saudação soa.
-- Que satisfação reencontrá-lo Capitão...
-- Dias. Herculano Dias. Como vai o senhor?
-- Bem e pelo que vejo é da Casa do Povo que nos conhecemos.
-- Ao que parece.
-- Satisfeito com o resultado?
-- Auspicioso. Infelizmente tenho de pedir licença. Estou em cima da hora para um compromisso.
-- À vontade, Capitão.
-- Até mais ver!
Theodoro acompanha com os olhos o deslocamento do militar e Silva Castro se aproxima a mirar a mesma direção.
-- Herculano Dias.
-- Vosso conhecido?
-- Do dever da vigilância. Sem o sólido alicerce da identificação, impossível defender em tempo hábil a República.
-- Folgo em saber.
-- Permita-me uma indiscrição?
-- À vontade.
-- Ouvi vosso comentário de ser daqui que conhece o Capitão Dias. Porém, vossa excelência, não estudou no Pedro II?
-- Sim.
-- O Capitão também e na mesma época que o senhor.
Lembranças surgem à mente de Theodoro e, entre os rostos recordados à sala, ao pátio, ao corredor do Colégio, em nenhum identifica traços do jovem Herculano. Ouve então Silva Castro dizer que o militar era o bolsista, filho da cozinheira. Lembranças são interrompidas pela passagem de Brito e pela abertura das portas do plenário. Receoso de que conhecidos o segurem, Theodoro despede-se do chefe de polícia. Na rua, entra no coche estacionado, com BV a espera. Incumbe o empregado de investigar Herculano.
-- Quero dossiê completo: das virtudes aos vícios.
-- Obtenho como de costume os recursos?
-- A partir de amanhã, já estarão autorizados. Fique por conta disso.
-- Entendido.
O empregado desce e faz sinal para Abdias partir.  Dali a instante, o carro já roda pela rua que margeia a Praça da República. O espaço primeiro se chamou Campo de São Domingos, depois de Santana e, em seguida, da Aclamação, onde Pedro I foi aclamado imperador do Brasil. Após a deposição da monarquia, autoridades acharam melhor mudar o nome para o atual a fim de evitar lembranças do regime decaído. Nesse ambiente secular, em meio a um dos arvoredos, Brito conversa com Herculano.
-- Esteja certo de que aqueles calhordas darão ao Governo as leis que quer para reformar a cidade a seu bel-prazer e a gente que se lixe.
-- A indiferença é a corda da forca. Alves cairá.
-- Sinto dizer, mas não há ninguém para abrir o alçapão.
-- Surgiu para proclamar a República, surgirá para a sua restauração.
– Não sonhe alto. Desde Canudos, brios e patriotismos não nos unem mais. A causa da farda agora é o pão nosso de cada dia e, quando preciso, a segurança nacional.
-- Está a desprestigiar a força dos ensinamentos.
-- Ou a entender os sinais. Mesmo que de quando vez haja um tumulto qualquer, é coisa da hora. Somos um povo comatoso, aguentamos tudo, talvez por descrença atávica. Coisa da raça.
-- Mate um homem, mas não invada seu lar nem toque na sua mulher, porque até o mais frouxo acatará a sua sentença de morte. É isso o que acontecerá com o governo tão logo os abusos dessa reforma ultrapassem o limite do suportável.
-- Gostaria de ter a sua certeza.
-- Expurgue as desilusões do peito e a terá. Logo mais as críticas ao governo serão substituídas pelas consultas de como detê-lo. Aí entramos em ação.
-- Se houver bases firmes e consistentes. Do contrário, melhor ver a caravana passar.
-- Claro, diz Herculano para tranquilizar Brito de que não anda a sonhar alto.

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Copyright de adaptação para Cinema e TV © 2005 by Maria Tereza O. S. Campos

domingo, 5 de abril de 2015

Capítulo Trinta e Dois

DA BATIDA POLICIAL


Mariinha e Belizária retomam a caminhada pelo meio da rua: um filete torto e comprido, iluminado por esparsos lampiões e ladeado por sobrados de dois ou três andares, grudados um no outro e com a maioria das fachadas em mau estado de conservação. Passam diante da casa de Sinhá Cota, ultrapassam a Rua da Lampadosa, depois, a Travessa das Belas Artes, num percurso em que os olhos se esguelham de um lado para o outro. No interior de uma taverna, avistam homens ao balcão e mulheres em modos nada recatados. Mais à frente, a cena se repete, acrescida de um carteado jogado sobre um tonel; em seguida, aparecem os casarios de portas abertas para íngremes escadas. Os olhos das duas se obliquam para os varões que proseiam no passeio com meretrizes de bustos pendidos à janela. Finalmente, perscrutam de longe o interior do botequim do Rômulo com portas também para o Beco do Tesouro. Como o procurado não está na bodega, as duas viram a esquina e combinam de ir até o fim do Beco e de lá ir embora. Poucos metros percorridos, à boca de uma viela, veem uma roda de capoeira. Belizária eriça-se com a visão e, sem dar ouvidos aos resmungos de Mariinha de que parar não era o combinado, empaca diante de um jovem de vinte anos. Num giro, o observado apoia as mãos no chão e lança as pernas em direção do adversário. Tão logo se ergue, Juliano já ginga em novo movimento. Belizária se deslumbra, Mariinha nem tanto e de novo reclama em vão.
O adversário de Juliano cede o lugar na luta para outro colega e a admiração volta a brilhar no rosto de Belizária e dos capoeiristas. Reconhecem no jovem não só o filho, mas também o legítimo sucessor de Malaquias, de quem todos têm uma história para contar, apesar de não se lembrarem do lendário porque eram pequenos quando ele foi deportado pelo crime da capoeiragem. Gritos e xingamentos ressoam e interrompem o jogo. Belizária corre para a esquina e avista a cavalaria. Os olhos arregalam-se e o corpo se vira em disparada para avisar os capoeiristas.
-- É a patrulha.
Num minuto o grupo se dispersa pela Travessa das Belas Artes: os rapazes somem por um lado e as moças por outro. Na esquina da São Jorge, as duas param e espiam a revista dos guardas pela rua abaixo. Mariinha torce para que a confusão desentoque o procurado e Belizária, que um conhecido surja para dar detalhes do ocorrido.
Não tão longe dali, na cozinha do casarão da Sinhá Cota, as mulheres ocupam os bancos, que ladeiam a comprida mesa. Algumas cerzem toalhas, outras montam pratos de doces, sob o olhar de Sinhá, acomodada à cadeira de balanço, ao lado de Anunciata, que faz crochê, sentada numa cadeira parecida, apenas menor. Tempo depois, Belizária chega e, em borbotões, relata a prisão de uma moradora da estalagem São Jorge.
-- Não sei bem porque, o Borges juntou a Rufina num canto e ela lascou um bofetão na cara dele. Fulo da vida, ele foi embora. Mas só que voltou com a patrulha e o Raposo. Quando a Rufina viu, injuriou. Chamou o Borges de tudo quanto é nome, disse que ele era um guarda de merda e coisas mais. O Raposo tomou as ofensas e mandou que ela tivesse modos. Pra quê? Baixou Exu nela. Pulou pra cima das sacas e gritou: a boca é minha, falo o que quiser. Prendam esta mulher, disse o Raposo. Aí a Rufina falou: vem que eu quero ver quem é homem aqui. Foi um banzé. Ela deu pontapé, dentada, ranhou a cara de um, rasgou a farda de outro e saiu arrastada para a delegacia.
Bebiana estranha.
-- Tá esquisito isso. Rufina só exalta na razão, até quando bebe.
-- Algo o Borges aprontou, aventa Divina.
-- Extorsão, sentencia Sinhá.
Anunciata balança um sim com a cabeça e os olhos no crochê.
-- Aí eu já não sei dizer. Conto o que o seu Montes contou.
-- Quem?
-- O salafrário do Montes, grita Sinhá Cota para Conceição. -- Onde já se viu fiar-se em palavra de gente ruim. Aquilo é um Judas.
Anunciata balança outro sim e Corina se inquieta com a andança de Belizária.
-- O que fazias lá embaixo?
-- Só fui acompanhar Mariinha até a venda do Rômulo.
-- Essa é outra com o futuro por um triz.
-- Eu, sinhá?
-- Sancta simplícitas! Tu tens têmpera para luxar?
-- Virgem Maria! Eu não.
-- Pois então não me enerves com o descabido.
-- Viste Juliano?
-- Sabe que não, mente Belizária para não afligir Delfina.
-- Onde anda esse menino? Já era hora de ele aparecer.
-- Não se agaste assim, minha tia, daqui a pouco ele chega, fala Gracinda.
-- Mas só de ouvir que a patrulha tá na rua, dá um travo amargo na boca.
-- Ele sabe se virar, acalma Lindalva.
-- Isso é o perigo. Morro se perder ele também para aquela maldita ilha.
Os olhos grandes de Belizária se assombram com as perspectivas.
-- Vocês mimam Juliano demais.
-- Só nós, sinhá?!
-- Não me desdiga, Gracinda. Ele tinha era que estar o tempo todo na lida com vocês, não caçando sonhos de grandeza longe daqui. Entendeste, Delfina?
-- Como não, sinhá, se isso é o que mais quero?
-- Ah, bom! E tu, Divina, ouviste bem?
-- Ouvi, sim, Sinhá, responde a dirigente dessa casa de mulheres na qual Juliano é o bendito fruto crescido entre tantos braços que o querem bem.

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Capítulo Trinta e Um

NA PRAÇA TIRADENTES


A lua cheia se eleva, o céu estrela-se e a Praça Tiradentes apinha-se de boemia. Trajando saia escura, blusa e turbante alvíssimos, Belizária desponta pela Sete de Setembro depois de ter descido do bonde. Prefere dormir em casa, pelo prazer desse passeio noturno, que faz em compostura de moça séria, com a pequena bolsa de pano trazida junto do peito. Das vitrines das lojas aos guichês dos teatros, das ofertas dos cambistas ao reboliço dos cocheiros, tudo a atrai e a muito mais espreita: a beleza descontraída que chega para jantar ou assistir a um espetáculo, os diferentes garbos que entram e saem das charutarias, os trejeitos adamados dos moços que furtivamente penetram as ruelas arborizadas da Praça e os modos oferecidos das mulheres de rosto maquiado que sobem e descem as ruas ao redor.
Mas o que mais lhe causa frisson é quando berros ecoam, corpos se atracam, brigas de amor tomam as ruas ou desavenças acertam as contas num beco da redondeza. Como um raio, corre para o local do fortuito e empertiga-se de espanto ante a desgraça alheia, em intensidade que lhe perturba o sono e nem por isso evita de conferir quando nova fatalidade ocorre. A cada drama visto, confere o triz do destino: a cara da discórdia, a cor do ultraje, o sexo da desdita e o curso da ventura em fúria, contido ou moribundo. Impressionada e impressionável, remói o inesperado e amplia seu repertório sobre as coisas da vida que diz conhecer muito bem. Quanto a si, tem que é uma moça pobre, de pouca formosura, mas prendada e abençoada por ter caído nas graças de Corina que, na época, escrava do asilo onde foi deixada na roda dos expostos, cuidou dela e a levou quando emancipada foi trabalhar com Divina, outra santa que a agasalhou. Com tais provas da misericórdia de Deus e proteção dos orixás, que ainda lhe deram emprego bom em casa de família de bem, é crente fervorosa e bendiz o peso da sua cruz.
Acedem as gambiarras das casas de espetáculo do entorno, o trânsito reduz e o movimento na Praça diminui. Belizária prossegue a sua ronda por entre o pessoal do sereno que se reúne na calçada ao redor de um fogareiro de carvão diferente, onde donos de bar grelham tira-gostos. Ao luar da iluminação a gás, os grupos ali comem, bebem e jogam conversa fora. Figura conhecida, a jovem dá boa-noite para uns, abaixa a cabeça para outros e dobra a esquina em meio ao olor das vísceras e sardinhas fritas que incensa o ar, desperta o apetite e a empurra para a casa, em noite de emoção amena.
Desce a São Jorge, atravessa a Sete de Setembro e avista a vizinha de frente à janela com a cabeça espichada para a banda de baixo da rua. Por pouquíssimo tempo, pois a moça se desvira em sua direção – sorri quando a vê – e desaparece correndo para dentro, onde diz aos pais de criação, o caixeiro Altino e a costureira Ismênia, que a amiga a chama para comprar sabão. Após esse átimo longe do seu campo de visão, Mariinha reaparece, mas na rua. Em corpo vistoso, de seios empinados sob a blusa de chita, a trigueira alterna os ombros para frente e para trás durante o deslocamento que faz barulhar os balangandãs de suas pulseiras.
-- Vão comigo ali?
O convite atiça, mas reservas inibem o pronto aceite. Belizária acha Mariinha desmiolada, luxenta e cheia de farofas da sua boniteza de cabelo bom. Assim se faz de difícil para não dar trela à moça.
-- Já ia entrar.
-- Não faz isso comigo.
-- Tó cansada.
-- Hoje é por mim, amanhã por ti...
-- Sei não...
-- Anda! Vem!
-- Onde?
-- Até mais embaixo.
-- Fazer o quê?
-- Ver uma coisa.
-- Que coisa?
-- Deixa de tanta pergunta e anda, diz enlaçando-se na amiga e a fazendo andar.
Formam um par desigual: uma alta, magricela de corpo duro e a outra, menor, arredondada em molejos.
-- Se um desconhecido falar com a gente, meu nome é Margot.
-- Que tontice é essa?
-- Tontice nada. É aprumo, diz enrolando uma mecha dos cabelos presos de um lado por uma flor e com o olhar a borboletear. -- Margot! Num é lindo?
-- Num renega seu nome de santa e nada disso de parar pra desconhecido.
-- Vai que é a sorte?
-- Ou azar.
-- Tenho corpo fechado, coisa ruim não me pega, diz balançando os balangandãs da sua pulseira.
Belizária para.
-- Assim, não vou.
-- Cruzes! Que mal há um dedo de prosa?
-- Tudo. De uma nesga de nada, a língua abelhuda faz um trololó e não adianta nem costurar boca de sapo porque não há mandinga que dê jeito em falatório de povo.
-- Ui, nem diga isso.
-- Digo porque sei das coisa. Fie em mim.
Mariinha se derrete em tristeza.
-- Tem coragem de me negar um favor?
-- É pro seu bem, responde, lutando contra a curiosidade despertada pelo convite.
-- Oh, Belizária, vai ser rapidinho, e quem há de falar mal se estou com você?
-- Bom, lá isso é verdade.
-- Então vamos.
-- Antes desembucha: a tal coisa que quer ver é esse desconhecido?
-- É.
-- O tipo é digno?
-- Bem vestido.
-- Onde ele tá?
-- Acho que no Bar do Rômulo.
-- Promete pela alma da sua mãe que a gente só vai olhar de longe?
-- Prometo, diz, tomando de novo o braço da amiga e a fazendo andar.

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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Capítulo Trinta


MEDITAÇÃO


-- O senhor precisa de alguma coisa mais?
-- Não, Belizária, pode ir.
-- Até amanhã.
-- Boa noite.
-- Pro senhor também.
O silêncio retorna à biblioteca do casarão e a leitura, à escrivaninha.
Respondo a tua carta recém-chegado de uma viagem, com os meus dois pequenos me puxando para eu ver algo importante. Ah, as urgências da inocência!
Nessa minha vida de engenheiro errante, estou de novo de mudança. Monto em Guarujá a minha próxima e provisória tenda, de onde viajarei para conhecidos pontos, na miserável canseira de um Sísifo, a rolar o meu fardo por essas estradas… ou a realizar a sombria tarefa siberiana de que nos fala Dostoievski – abrir todos os dias a mesma vala para depois preenchê-la com a terra retirada. Assim vou, no círculo vicioso de uma faina ingrata. Porém, tenho tido consolos.
A eleição, em setembro último, para a Academia Brasileira de Letras, sem data ainda de posse à cadeira do grande Castro Alves, continua a alegrar meu espírito, nesses tempos de filhotismo absoluto, verdadeira idade de ouro dos medíocres. Mas não tenho vaidades: mantenho-me na boa linha reta que meu pai me ensinou desde pequeno. E nela hei de continuar.
Alenta-me também o interesse dos leitores que querem conhecer as palavras deste advogado dos sertanejos assassinados por essa ordem pulha e covarde que aí está. Reconheci, na leitura da tua carta, a crença inabalável de ser possível regenerar o sistema, por ser imortal a República. Mas, ante os politicões, cheguei à conclusão desanimadora de que nossa política não passa de uma conspiração contra o caráter nacional. E penso que nossa raça (?) está liquidada. Deu o que podia dar: a escravidão, alguns atos de heroísmo amalucado, uma república hilariante e, por fim, o que vemos por toda parte ― a bandalheira sistematizada. Resta-me o consolo de haver feito pelos admiráveis patrícios de Canudos a minha denúncia e o recurso para apelar às gentes do futuro para quem especialmente escrevi Os Sertões.
Livros e escritos resumem a minha aspiração de uma vida tranquila. E para realizá-la persisto na decisão de lecionar na Politécnica de São Paulo. Na Escola poderei suprir a necessidade de trabalhar e de estar com as pessoas que me faltam nessa convivência estúpida com os empreiteiros que me rodeiam. Não sei se sabes que na Politécnica acabou o concurso para admissão de professores. Até os substitutos só entram agora por indicação. Conto com a boa vontade dos amigos lentes de lá, que incansáveis se esforçam para minha contratação e me aconselham a dar um pouco mais de tempo ao tempo, para que tudo se arranje a favor do aceite do meu nome. Assim, impacientemente, aguardo.
Minhas passagens pelo Rio têm sido céleres de um noturno ao outro. Em todo caso, se surgir uma possibilidade de demorar mais que um dia, te avisarei para podermos nos encontrar. São raros os bons companheiros, nestes tempos maus, e bem sabes que eu não dispenso os raríssimos que possuo.
Sobrescrevo, no verso do envelope, o endereço de Guarujá, onde espero receber tuas próximas notícias, e peço-te que me recomende à Exma. Senhora e filha.
Abraço-te,
Euclides.
Em mangas de camisa, Herculano parece mais jovem, mas não menos sóbrio. Braços apoiados sobre os da escrivaninha, carta sobre a escura madeira do móvel, recorda-se de um artigo que Euclides escreveu por época da fundação da Escola paulista, em 1893, no qual criticou o modelo de ensino adotado. Orientado para um estudo prático, o método suíço diferia do francês, implantado na Escola Militar do Rio de Janeiro e na de Minas de Ouro Preto. Euclides defendia o francês, por causa da sua ênfase na matemática e da didática que partia da dedução dos princípios das ciências físicas e naturais para ensinar a aplicação dessas acepções às indústrias. Com a justificativa de que cumpria o dever de combater o erro cometido por uma escola pública, naquele artigo, Euclides classificou o projeto de desastroso, incorreto na forma, carente de matérias e filosoficamente deficiente para formar a mentalidade dos engenheiros e desenvolver o pensamento científico no país. Como o artigo não suscitou réplicas, em novo texto, declarou que ninguém ousaria arrostar as consequências de negar os defeitos apontados por ele, nem mesmo o autor do projeto, que era o reitor. A despeito de suas críticas, por duas vezes, candidatou-se à posição de lente na Escola e, em ambas as ocasiões, teve seu nome preterido.
Impossível para Herculano não pensar que Euclides tornou-se um desafeto do reitor, que se mantém no cargo invulnerável à dança das cadeiras de sucessivos governos. Imagina que pese negativamente contra o colega não somente suas críticas passadas, mas também sua índole combativa do improbo. E receia que uma vez mais o despotismo do reitor consiga manter fechadas as portas da Escola paulista para o engenheiro autor de Os Sertões.
Tão pouco lhe é impossível ignorar a opinião de Euclides sobre a política ser uma conspiração contra o caráter nacional. Escrevera-lhe para conhecer sua visão acerca do momento atual do país e apreciou a resposta. Vislumbra, nas decepções com os políticos, a perspectiva de que o colega se torne um aliado para extirpar as condições daninhas que impedem o progresso para todos. Anota um pensamento na própria carta para incluí-la na próxima correspondência: dê um pouco mais de tempo ao tempo para ter também a resposta daquela pergunta que me fez em Canudos. O presente engendra as condições para eu lhe dizer o que as bandas do futuro nos reservam.
Encosta a cabeça no espaldar da cadeira, numa posição que favorece a visão do quadro da República. Pensa no encontro com Theodoro. Julga inapropriado falar sobre teoria militar no meio da rua, ainda mais com estranhos, e desconfia de palavras apressadamente lisonjeiras e do sorriso fácil -- costumam esconder dissimulações. Porém, à luz da cartilha pela qual analisa a conduta humana, as duas ocorrências não se coadunam: um ardiloso nunca se revela! Se a afabilidade de Theodoro tivesse se resumido à declaração do seu apreço por leituras de guerra, tomaria a ocorrência como de um sujeito maneiroso, inadequado ao cargo de secretário de governo, em virtude do risco daquele apreço ser interpretado como a expressão de um temperamento belicoso, nada indicado para a condução dos assuntos públicos. Mas enfatizar esse apreço, numa ampliação da exposição de si, com o comentário de que táticas militares também são úteis em tempos de paz, parece-lhe uma ação deliberada: por quê? Teme insatisfações com a reurbanização? Receia o comportamento dos militares e quer avisar que está atento? Ou continua a se exibir, como um pavão?
Não responde a própria pergunta, atraído pela beleza de República. Contempla a expressão em sábia atenção, depois os lábios fechados na suavidade de um quase sorriso. Seu olhar percorre a linha do pescoço, escorrega pelo regaço dos seios cobertos pela túnica branca e, no ir-e-vir das vagas formadas pela veste cinturada, oscila, quando então desliza o ventre até o incógnito delta... Aí se detém sem rolar pelas roliças coxas encobertas pelo tecido leitoso. 
Vaga o prazer despertado por essa incursão, desejoso de ser o homem da pátria, o predestinado a defendê-la dos violadores de suas virtudes, aquele que a guiará rumo ao progresso. Experimenta forte sensação em se imaginar abraçado àquele corpo, reconfortado no abrigo morno e macio do colo desejado. Inspira o deleite e o prazer se esvai com a lembrança invasiva da dificuldade da esposa para compreender que poderia ser como aquela musa, se ambas são parecidas e é da natureza feminina confortar. Não com um acolhimento que aproveita da brandura para querer conhecer seus mais íntimos pensamentos, nem com um silêncio que se ressente do que pela própria ordem natural das coisas não pode haver. Um marido deve possuir reservas para tomar decisões sem causar preocupações à mulher nem lhe estimular ponderações que, apesar de bem intencionadas, desconhecem a temática que buscam influir. E há o indizível que fala ao coração de um homem, como neste instante, de profunda intimidade consigo mesmo. Levanta-se e acende as luminárias: República se ilumina banhada pela luz que vaza das arandelas de papel dourado. Como é bela! Por que não consegue, Páscoa?

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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Capítulo Vinte e Nove

DILEMA PRESIDENCIAL


Rodrigues Alves está diante da janela do seu gabinete. O ar grave acentua seus cinquenta e cinco anos ornados em terno elegante, pincenê de aro de ouro e cabelos grisalhos. Atrás de si, do outro lado da mesa, Theodoro espera de pé a continuidade do despacho. Sem se virar, o presidente fala.
-- Acha que perderemos apoio?
O secretário de governo mede as palavras.
-- Não no curto prazo.
-- Receia que eu não possa influir no processo da sucessão presidencial?
-- É meu dever aventar cenários possíveis.
-- E ser mais específico.
-- Temo a coligação em torno de um nome favorável à defesa do café.
Rodrigues Alves pensa no dilema central do seu cargo e se vira.
-- Ou se governa para manter as bases do poder ou para fazer a nação avançar. Vamos nos sentar enquanto estas cadeiras ainda estão a nossa disposição.
Theodoro entende que o jogo político ficará mais acirrado e não se intimida com o resultado provável da partida. O prazo de dois anos, até sair das urnas eleitorais o nome do vencedor, lhe parece razoável para jogar a favor do presidente e desfrutar da sua inflexibilidade. Espera Rodrigues Alves se sentar, para se acomodar e prosseguir o relato da reunião de hora atrás com os senadores. Põe em perspectiva as autorizações legislativas mais urgentes e conta sobre a decisão tomada.  
-- Priorizei a votação da Justiça Sanitária e recomendei deixar de fora a lei da vacina, se for necessário.
-- Caso seja retirada, quando acha que poderemos apresentá-la novamente?
-- Entre março e junho, no mais tardar.
-- Vê a possibilidade de que, nesse meio tempo, a bancada paulista consiga condicionar a aprovação à defesa do café?
-- Precisarão de um prazo maior para transformar a questão em problema nacional. Aí a pressão terá outro foco.
-- Faz sentido seu prognóstico com relação à sucessão presidencial.
-- Conforme melhora a saúde financeira do país, os cafeicultores parecem menos dispostos a vencer as crises do setor por meio próprio.
-- Pois que mudem sua disposição e aprendam a aplicar os lucros na época de vacas magras. Não somos um Governo providência.
-- Disseminarão uma visão diferente.
-- Combateremos com mensagens claras à nação. Nossos compromissos são com o país, não com o que for melhor para os cafeicultores. Defenderam o federalismo e o têm; contam com a recuperação do crédito no exterior e estão habilitados para preparar nos mercados a resistência que julgarem eficazes. Explore essas ideias nos artigos que contratar.
-- Perfeitamente.
-- Espero que tenhamos bom resultados amanhã.
-- No mínimo, entregarei ao senhor a aprovação da Justiça Sanitária.
-- Para o aspirado, há o possível.
-- Se for esse o caso, sugiro que a reapresentação da lei da vacina se dê pelas mãos de um senador. Pouparemos assim o Diretor de Saúde de mais desgastes.
-- Essa é a missão que deleguei ao senhor. Faça do modo que julgar melhor.
-- Sim, senhor.
-- Algo mais?
-- Não. É tudo por hoje. Com licença.
Theodoro deixa o gabinete e, em seguida, o Palácio do Catete. Toma um coche e se dirige ao Pharoux, onde Catarina o espera para juntos receberem Valentim. Como um jogador, está concentrado no lance da próxima partida, no que pode acontecer e em como agir. No cais, desce do carro e caminha até antes do desembarque. Ali, de longe, localiza a mulher e o empregado. Depois vê os passageiros que chegam e, entre o grupo, avista Valentim – está bem, conclui. Volta o olhar para Catarina. Observa a leveza do seu andar, num percurso que o leva a mirar de novo o amigo: embasbacado. Penetra o desembarque e toma lugar no reencontro.


Copyright © 2013 by Maria Tereza O. S. Campos
Copyright de adaptação para Cinema e TV © 2005 by Maria Tereza O. S. Campos




Capítulo Vinte e Oito

BACIA DAS ALMAS


Durante o percurso do carro, Theodoro mira a rua com os pensamentos de volta à reunião. Se olhasse um pouco mais para o alto, com certeza teria enxergado Herculano, à sacada de um sobrado comercial, em outra ocorrência casual. Apreço por táticas militares, retruca o observador consigo mesmo, a espera do advogado, que deu uma saída rápida conforme o explicado pelo secretário, sentado à mesa do espaço. A porta da antessala se abre e o esperado adentra.
-- Capitão Dias?
-- Dr. Anacleto!
-- Desculpe-me de não estar aqui para recebê-lo.
-- Eu que peço desculpas. Houve um incidente na boca da Santo Antônio, parou o trânsito e não tive como postergar um compromisso anterior.
-- Não se preocupe. Soube da truculência e imaginei que poderia se atrasar.
Herculano gosta do adjetivo empregado à inspeção sanitária. Convidado a passar para outro ambiente, pega a maleta de viagem, deixada numa cadeira ao lado, e penetra o escritório decorado com sobriedade semelhante ao do anterior.
-- De viagem, Capitão?
-- Retorno do arraial de Copacabana. Minha família passa alguns dias lá.
-- Bom local para fugir deste verão infernal.
-- É. Está bastante quente.
-- Sente-se. Fique à vontade.
-- Obrigado.
-- Disse ao meu secretário que foi recomendado por D. Perpétua da Costa.
-- Pelo genro, o Capitão Brito.
-- Em que posso ser útil?
-- Como defendeu D. Perpétua na desapropriação da Cabeça de Porco, quero ouvir vossa opinião. Tivemos dois imóveis desapropriados na Avenida Central.
-- Tem sócios?
-- Não. Os imóveis são herança da minha mulher.
-- Como estão as condições de salubridade?
-- Aceitáveis.
-- Algum é moradia?
-- Dos inquilinos. Possuem atividade comercial no andar de baixo.
-- O que me diz do preço registrado para fins de imposto?
-- Nem um centavo a menos do valor de compra.
-- Menos mal. Algum problema com os cálculos indenizatórios?
-- Não. O erro é a mudança da base de cálculo. Inaceitável não pagar o preço atual
-- Com certeza, espolia a valorização do imóvel.
-- Não compro com a indenização a mesma metragem desapropriada. E terei perdas de aluguel. Por favor, veja os cálculos que fiz.
Herculano retira papéis de dentro da maleta e os entrega. Anacleto passa os olhos.
-- Uma quantia apreciável!
-- Como ganhou a causa de D. Perpétua, é a pessoa certa para nos representar.
-- Obrigado pela confiança, mas hoje o processo provavelmente não correrá no juízo dos feitos da Fazenda Municipal e sim nessa Justiça Sanitária que o Governo quer criar. Está sabendo da novidade, não está?
-- Estou. O caso lhe interessa?
-- Sim, porém receio que esse novo órgão seja uma artimanha do Governo para dar aparência legal às arbitrariedades da reurbanização. Teremos dificuldades.
-- Estou decidido a enfrentá-las. O direito da propriedade privada não pode ser inalienado na bacia das almas.
-- Exato e os termos dessa desapropriação são anticonstitucionais, diz Anacleto dirigindo-se à janela, onde fecha a gelosia.
A medida veda o sol e reduz o burburinho da rua, por onde Dr. Eugênio anda contrariado. Nem água lhe serviu a empregada da paciente que visitou. Que falta faz uma dona de casa sã! Não vê a hora de trocar a roupa pesada por um leve e fresco camisolão, depois, sentar-se à mesa e almoçar. Chega ao Largo da Carioca ocupado de novo pelos ambulantes. É um absurdo esse povo. Avista um conhecido, que sai da Marcenaria Atlas. Aperta o passo.
-- Psiu! Sr. Andreadis!
Grego se vira e espera o médico se aproximar.
-- Como está, Doutor?
-- Bem. Talvez precise do senhor, na próxima segunda-feira.
-- Banho de mar?
-- Para afinar violino que não seria a cinco da manhã!
Grego ignora a indelicadeza alheia.
-- O serviço é na praia do Arraial?
-- É. Mas só terei certeza no dia. Pode estar lá sem compromisso?
-- Posso. Espero o senhor nas pedras de Inhangá?
-- Bom local. Pra onde está indo?
-- Tomar o bonde pro Largo do Machado.
-- Serve pra mim. Vamos juntos e no caminho explico como quero o banho.
Embarcam no carro parado no meio do Largo que logo parte. Entre falas de um e devaneios do outro sobre a paciente, o percurso evolui. Na altura da praia do Flamengo, o bonde margeia os fundos do ex-palacete do Barão de Nova Friburgo e, desde 1897, sede do Governo Federal e denominado de Palácio do Catete.

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Capítulo Vinte e Sete

ARTICULAÇÕES


Theodoro se reúne com os senadores Manuel Duarte, Alfredo Ellis e Francisco Glicério num prédio da Rua do Ouvidor. Glicério foi um dos políticos suspeitos de conspirar contra a vida de Prudente de Morais. Ellis representa os interesses do café e Duarte, os do governo. A reunião versa sobre Projetos de Lei criados pelo diretor de Saúde, Oswaldo Cruz, que tramitam no Senado e com um já aprovado pela Câmara.
-- Pelas contas, já temos o suficiente para as aprovações de amanhã.
-- É um número apertado, Theodoro, observa Duarte.
-- Precisamos aprovar pelo menos a reforma.
-- Melhor deixar a Casa discutir no tempo dela.
-- Eu concordo, fala Glicério.
-- Alguém vai dar pra trás?
-- Não disse isso. Mas vale a pena levar o barco devagar.
-- Não podemos. De quem precisamos cuidar nas próximas horas?
Ellis faz um muxoxo cético antes de falar
-- Não se trata de quem e sim de como cuidar com os mesmos estímulos.
-- Mas tudo já foi acordado. O que está pegando?
-- A pressão, Theodoro. Há um incômodo com as urgências das aprovações.
-- Não somente, Duarte. Sem discussão, pesa a alcunha de Congresso alugado. E não temos a vacina contra brios feridos, esclarece Glicério.
-- A menos se acenarmos com o preço do café, contrapõe Ellis.
-- Infelizmente, não tenho esse lenço para dar, responde Theodoro.
-- As próximas horas não são suficientes para convencer o Presidente?
-- Verá no pleito uma queda de braço. Não posso encaminhar isso.
-- Theodoro está certo, Ellis. E convenhamos: temos de resolver de outro jeito a questão, não jogar o problema pra cima do governo.
-- Não é hora de pudores, Duarte. O café é a moeda nacional, não pode ser tratado como uma lavoura qualquer. Ou prefere um prejuízo colossal?
-- Há controvérsias e o mercado tende a se reequilibrar.
-- Não com a má vontade do presidente.
Theodoro tenta ajustar o foco do debate.
-- Senhores, essa é uma questão complexa e está pendente o resultado de amanhã.
-- Pois escreva aí: se o governo comprar o excedente da safra e pagar o preço justo do café, o presidente terá todas as medidas que quer aprovadas de uma vez.
-- Não terá, nem pode cobrir um santo e descobrir todo o oratório, retruca Duarte.
-- Mas quem o levou ao poder?
-- Não só o setor.
-- Pois que defenda a agricultura inteira, o que não podemos é ficar à mercê dos especuladores e atravessadores do mercado internacional.
Theodoro interfere de novo.
-- Ellis, o que acha de sacrificar um dos Projetos para confortar as bancadas?
-- Se abre mão da aprovação integral.
-- Alguma coisa é melhor do que nada.
-- Sugiro então retirar a Justiça Sanitária.
-- Prefiro a vacina obrigatória. É mais indigesta, fala Glicério.
-- Não tem como, exclama Duarte. É ponto crucial do combate à varíola.
-- Porém mal vista pelo povo. Já a mão da Justiça alcança apenas os infratores.
-- Fora que quem se sentir lesado pode recorrer ao tribunal sanitário, pondera Theodoro. É isso. Se preciso, tirem da votação a vacina, mas aprovem os demais pontos.
-- Vá lá! Mas avise ao Presidente que o saneamento dos preços do café é também uma questão de saúde pública. Saco vazio não para de pé, fala Ellis.
A reunião caminha para o encerramento, com BV e Abdias a espera do patrão na esquina da Ouvidor. Encostados no coche, os dois observam Expedito Massini atender a um cliente, com seus livros a cobrir parte da calçada, do lado da Gonçalves Dias.
-- Se queres inspiração, recomendo Missivas Apaixonadas. Agora, se ainda estás na fase de despertar a atenção, indico A Arte de fazer sinais. Veja os dois.
O cliente, um jovem pálido, desliza os olhos de um título para o outro.
-- Estão mal conservados.
-- Sinal de que foram bem usados.
Abdias e BV se entreolham com ar zombeteiro.
Theodoro desce a Ouvidor, para num Café, troca amabilidades com o proprietário ao caixa e pede papel e lápis. Atendido, escreve nomes e endereços. Em seguida, despede-se e sai. À Gonçalves Dias, entra no coche, seguido por BV. Sem delongas, entrega o papel ao empregado e o instrui.
-- Passe na Raffinée e providencie três cestas de luxo – reforce vinhos e bombons. Faça com que sejam entregues ainda hoje nesses endereços e cuide dos cartões e dos pagamentos como de costume. Viu aquele assunto?
-- Vi. É tudo uma propriedade só.
-- Confirmou?
-- Na repartição e também no local.
-- Pedi discrição.
-- Tomei as precauções e a benzedeira não me conhece.
-- Josefa, sim.
-- Ó patrão, sou boca de siri. Não disse meu nome nem toquei no de ninguém. Dei até de sonso: perguntei pelo dono, não pela sinhá. Mas a benzedeira não disse nem sim nem não quando sondei se há interesse de venda.
-- Deixe quieto o assunto e esteja amanhã cedo no Senado. É só por hoje.
-- Sim, senhor.
BV desce e o coche parte.

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