quarta-feira, 18 de março de 2015

Capítulo Dezoito

PERVERSIDADE


Herculano sentiu uma pontada no peito tão logo avistou o outeiro onde deviam aguardar a ordem de avançar rumo ao ataque simultâneo. Para lá se dirigiu mapeando os arredores de extensão coberta de vegetação baixa por onde seu olhar penetrava por entre galhos retorcidos. Uma e outra árvore, de caule fino, se destacavam na paisagem de céu intensamente azul, com algumas nuvens brancas, como pequenos flocos de algodão. O belo ou o inóspito do cenário pouco lhe importava, apenas a ausência de vantagem para a força inimiga naquele terreno. A tropa estaria em situação mais favorável.
A tarde caía quando terminaram de montar o acampamento e começaram os preparativos do jantar. A presença das mulheres nos afazeres, com os filhos por perto, dava ao local um ar de tempos de paz e trouxe a Herculano a lembrança da família. Mas essa estada foi rápida, pois ele afugentou suas indagações de como Páscoa poderia estar, o quanto Sofia crescera, se Quitéria as cuidava com o desvelo de sempre e se a idade não pesava em Tião do Congo para protegê-las a altura do seu passado de destemido sentinela. Não, não era hora de recordações, nem de inquietações que sugassem a concentração no confronto próximo.
A noite já ia longe quando o abafamento da barraca integrou Herculano ao redor de uma fogueira. Ali a prosa ainda corria solta, estimulada por Manuel Benício, ex-militar e correspondente de guerra vindo da outra brigada há poucos dias. Contava casos ouvidos durante a sua andança pela região e, de quando em vez, aproveitando-se da empatia despertada, lançava perguntas, nas quais Herculano reconhecia o interesse em obter material para reportagens. Calhou dos dois ficarem sozinhos e os fatos relatados por Benício mudaram do pitoresco para situações vividas pelas expedições anteriores. A cada palavra dita, na mente de Herculano, vantagens militares eram destruídas por erros eficientemente aproveitados ou estimulados pelos sertanejos.
Em região desconhecida, por mais de uma vez, os soldados penetraram o território dos adversários sem perceber que a estrada livre os levava para um cerco avassalador. Surpreendidos, descarregaram munições sem alvo à vista e se viram obrigados a fugir por estreitos desfiladeiros, onde tiros certeiros e uma avalanche de pedras os esperavam. Erros mais elementares e não menos nefastos também ocorreram. Uma expedição minguou de sede ao descobrir que carregara por léguas a fio um macaco de levantar cargas ao invés de bate-estaca para perfurar o solo e instalar a providencial bomba de água que transportavam. Ocorreu também de uma tropa partir para o ataque após uma longa e exaustiva marcha sem alimentação. Durante a investida ao arraial de Canudos, a fome era tanta que a mira inimiga foi esquecida pela possibilidade de abocanhar um naco de carne seca ou correr atrás de galinhas para ter o que comer. Em meio à perspectiva do suculento repasto, muitos tombaram alvejados. 
Os sertanejos, por sua vez, tiroteavam com método e disciplina, sem desperdiçar munição nem se abalar com as balas. Com maestria, convertiam em emboscadas e ataques-surpresas o conhecimento das trilhas da caatinga fechada e das passagens por entre escarpas íngremes. Mostravam-se ousados, dotados de uma capacidade de recuperação surpreendente e, a cada recuo imposto ao Exército, ocupavam posições estratégicas para a reorganização das forças legais, além de se apossar de armas abandonadas pelos soldados durante debandadas atabalhoadas.
O relato explicou para Herculano a origem de grande parte do poder bélico dos adversários e da sua superioridade guerreira. Desfez a suspeita de que os oponentes haviam recebido armamentos de rebeldes nacionais e sido treinados por força estrangeira. A ideia de um movimento restaurador da monarquia propagada pela imprensa também lhe pareceu outra mentira e a desavença comercial deflagradora da guerra se configurou numa cortina de fumaça a esconder as causas do conflito.
Sua expressão tensa inspirou confiança em Benício, que lhe revelou algo comprometedor acerca do comandante-geral da operação, reunido na outra brigada.
-- Arthur Oscar comprou menos provisão do que devia.
-- Como sabe?
-- Tive acesso ao quartel-mestre; tem muito pouca coisa lá.
A perspectiva de outro erro no carregamento de suprimentos adensou a inquietação de Herculano – e o espírito de corpo falou mais alto. 
-- O comandante deve ter tido suas razões.
-- Com certeza. Quando acha que será o combate?
-- Não tardará. Estamos próximos de Canudos.
-- Acho que haverá atrasos. Devemos atacar perto de 29 de junho.
-- Não se desgasta uma tropa com retardamentos desnecessários.
-- Nem para celebrar o aniversário da morte do Marechal de Ferro?
Herculano intuiu denúncias a caminho e tateou com cautela a revelação.
-- Um motivo de menor monta quando centenas de vidas estão em jogo.
-- Contudo forte o bastante para unir os florianistas com a vitória e guiá-los numa deposição do presidente.
Dessa vez a cortina de fumaça se turbilhonou pra valer ante Herculano.
-- Com base em quê diz isso?
-- Em suspeitas que investigo. Tudo indica que um golpe de Estado está sendo montado. Até o presidente já falou que, por detrás dos sertanejos, trabalha a política.
-- Desconheço essa declaração, mas penso que se refira às ideias do beato.
-- Por que um penitente se daria ao trabalho de depor o governo se crê no apocalipse em 1900 e vê na proclamação da República o sinal do fim?
-- No entanto, pegou em armas.
-- Em defesa ao ataque manejado pelos políticos da região. Conselheiro não passa de um remédio atrasado da nossa moléstia social e que apareceu nessas terras sob a forma da religião. Porém cometeu erros: esvaziou as lavouras ao atrair o povo para sua comunidade cristã-socialista e apoiou a chapa da oposição que se elegeu.
-- A partir desses fatos, deduz que a guerra foi criada para servir ao golpe?
-- Criada para os fins daqui e usada pelos florianistas para seus propósitos na Capital Federal. Uniram a fome com a vontade de comer.
A perversidade da má-fé conjecturada soou tão violentamente, que Herculano desconfiou de que Benício estivesse lhe pondo a prova.
-- Não está a exercitar em demasia a sua imaginação de escritor?
-- Antes estivesse. Mas estou certo de que querem se valer da insegurança nacional para derrubar o governo e pôr no lugar o vice que é egresso da tradição local.
-- Essa suspeita esvazia a da quantidade de víveres e munições compradas. Combalir a tropa é dar um tiro no próprio pé.
-- Não para a soberba. Moreira Cesar subestimou a força dos sertanejos, ávido em obter a vitória e se apresentar como um dos homens fortes no futuro governo. Agora é a vez de Arthur Oscar tentar o feito.
-- Arrisca-se com essas declarações.
-- Não pode haver desconfiança com relação aos motivos da guerra que se trava nem com relação às intenções do general que a comanda.
A frase soou como uma bofetada em Herculano.
-- O que espera de mim?
-- Provas. Preciso saber quanto Arthur Oscar ganhou de verba.
-- Comprovará apenas malversação de fundos, se tanto, ou outro erro de comando, não a suspeita da conspiração.
-- Mas a notícia abalará a reputação e atrapalhará o golpe.
Não tardou para Herculano informar ao jornalista o valor da verba. Os olhos de Benício brilharam ao saber que o montante era três vezes maior que o recebido por Savaget, comandante da brigada do seu informante.
-- Tanto dinheiro e um carregamento inferior ao de vocês! Arthur Oscar que preste contas à sociedade porque vou denunciá-lo.
Jamais, como nesses dias à espera da ordem do comando-geral para avançar, Herculano carregou a certeza do menosprezo à vida alheia que determinados homens possuíam. A suspeita da operação militar a serviço do golpe transformou-se em verdade e, como o irmão siamês do Exército, suportou a pressão dessa dependência engajado nos exercícios praticados de sol a sol para adquirir destreza em correr pelo chão irregular do sertão, para rastejar no solo espinhoso da caatinga, para pular e sair dos barrocais da região, para sobreviver à criminosa guerra e credenciar-se com seu mérito a um lugar na revolução que um dia adviria de ocorrer no país.

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segunda-feira, 16 de março de 2015

Capítulo Dezessete

O BEATO ANTÔNIO CONSELHEIRO


Em novembro de 1896, notícias vindas da Bahia puseram Herculano de sobreaviso. O relato contava que um juiz daquele estado pedira proteção policial para o governador recém-eleito, porque seguidores de um beato, chamado Antônio Conselheiro, planejavam saquear sua cidade para retirar uma mercadoria que fora ali comprada e não havia sido entregue por causa de desavenças comerciais. Uma tropa se deslocou para o local. Como nada encontrou, o destacamento resolveu averiguar a conformidade em Canudos, vilarejo onde moravam os ameaçantes. No meio do caminho, houve um confronto no qual morreu uma centena de sertanejos e uma dezena de praças. Em nome dos soldados mortos, políticos baianos exigiram o revide e o governador solicitou reforço federal.
Herculano sabia da existência do beato. Há dois anos lera em uma gazeta que Conselheiro se recusara a pagar impostos e comandava dois mil homens com o intuito de restaurar o antigo regime. O distante local do comando e o número de comandados o impressionaram. Não o objetivo do comando. Tinha que os erros do presente republicano arremessavam para as terras do olvido os pecados do passado monarquista. Deslembrança, nostalgia. Tão célere como passara pela imprensa, o religioso atravessou o campo de atenção de Herculano, e agora retornava, acompanhado do parecer de um senhor local, o barão de Jeremoabo. 
-- O deplorável fanatismo e a anarquia devem cessar para a honra do povo brasileiro, para quem é triste e humilhante que, ainda na mais inculta nesga da terra pátria, o sentimento religioso desça a tais aberrações e seu partidarismo político desvaire em tão estulta e baixa reação.
Quinhentos soldados marcharam para Canudos, numa ordem expedida pelo vice-presidente da nação que, desde novembro, substituía Prudente de Morais, licenciado por motivos de saúde.
Preocupado com o prenúncio de outra guerra civil no país, Herculano esperou a vitória e se alarmou quando soube que a expedição fracassara. Mais um agrupamento militar foi organizado e enviado para o local. A derrota se repetiu e também alcançou a terceira expedição que seguiu para Canudos. Como sertanejos podiam ter tal supremacia bélica? Era a pergunta que Herculano se fazia atônito e em uníssono com muitos. O pânico se disseminou pela população e o clamor de imprecações se ergueu contra o governo por ter descuidado da ordem do país: “estamos entregues a um incompetente Exército e à mercê da ferocidade de bárbaros” era o consenso.
Herculano se envergonhou com o fundamentado julgamento e temeu ao ouvir rumores de que forças estrangeiras treinavam os insurretos nas mais modernas técnicas de guerra. Uma gazeta acusou o editor de um jornal monarquista de ter enviado armas para os sertanejos e despertou a ferocidade dos florianistas, que mataram a punhaladas o editor. A violência se alastrou pelos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, sem a polícia dar conta de manter a ordem pública.
Prudente de Morais interrompeu a licença médica e retornou ao poder. Uma quarta expedição foi organizada, com quatro mil homens divididos em duas brigadas para realizar ataques simultâneos a Canudos por lados contrários.
O recrutamento alcançou Herculano, em luto pela morte da irmã, vítima da febre amarela. Aguentou o baque de se separar da família e partiu para Aracaju, na posição de tenente-ajudante do estado-maior da segunda brigada. Lá iniciou a viagem de trezentos quilômetros por terreno escabroso, na companhia de soldados, alguns acompanhados das suas famílias.
Conforme avançavam sob o sol causticante, bolhas brotavam nos pés e a tropa sofria. Faixas e solados improvisados substituíam botas e mitigavam dores. Pelo caminho, ressoava um burburinho ondulado de exclamações desassombradas ou assustadas com os relatos da guerra de Canudos. Nesse contar, bravuras adversárias eram diminuídas, coragens militares enaltecidas e ataques pensados de como enfrentar os sertanejos. Outros planos também eram imaginados: quando voltar para casa, irei...
Herculano ouvia o burburinho e observava as expressões céticas ou crédulas dos corpos suados e empoeirados. Assemelhavam-se a uma horda que caminhava em busca de uma região menos inóspita para viver. Mas o armamento denunciava a identidade do grupo, a intenção que os movia e o trágico que os unia no áspero e escaldante sertão. A cada vilarejo percorrido, o cenário humano se repetia: uma população pobre, moradora de casebres a pau-a-pique, erguidos em territórios de um barão ou de um coronel – título este herdado dos tempos coloniais, quando o país não possuía Exército e o governo delegava a manutenção da ordem pública aos senhores locais. Nessas paisagens, Herculano se constrangia ao ver a República se apresentar àqueles brasileiros a partir do poder reluzente da fuzilaria em vez das perspectivas luminosas do abc. Enxergava nesse abandono motivo suficiente para qualquer um trocar o terço pela arma e lutar contra a opressão naquele fim de mundo.
Estoicamente, suportava a pressão de perceber que marchava para participar de um fratricídio que não mudaria para melhor a forma de governar a nação. Poderia dar um jeito de arranjar uma dispensa se visse futuro fora da guerra. Mas não. Tudo lhe dizia que um feito heroico ampliaria sua visibilidade dentro do Exército. Precisava dessa distinção para formar seguidores e concretizar sua missão de vida. Tais devaneios o perseguiam ao longo dessa marcha, até que certa vez, pensou em Conselheiro, no seu sonho obstinado de restituir a monarquia, e nas próprias pregações aos alunos. Reconheceu sua semelhança com o beato e renovou sua convicção de que só podia contar com a sua tenacidade quase fanática para realizar seu ideal.

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Capítulo Dezesseis

DO TABULEIRO VERDE-AMARELO


A revolta federalista prosseguiu e Herculano se manteve em seu posto de instrutor militar sem dar margem para outro entendimento a seu respeito que não fosse o de ser um sóbrio e leal servidor republicano. Tão reservado quanto antes, retomou a função acadêmica em outubro de 1895, quando a paz foi selada no Rio Grande do Sul, com um saldo de cerca de dez mil mortos, dos quais inúmeros degolados por cada lado do combate. Mas algo mudou na sua autoexpressão, a partir do ano letivo seguinte.
Daquela reserva, começou a se configurar a imagem de um professor que oferecia uma visão de futuro para os alunos. Nesse porvir, o grupo não só ostentava o domínio da arte da guerra e da engenharia militar, como ainda o conhecimento das ciências que os tornava agentes valorosos do progresso das instituições republicanas.
Herculano acreditava nessa visão, mas também a explorava com o objetivo de acalmar e disciplinar aquela mocidade, que retornava à sala de aula, com a memória de suas atuações nos batalhões patrióticos. Achavam-se os guardiões da República, além de prontos para intervir nos rumos do governo, que procurava nesse momento pôr fim à sustentação armamentista do regime e obter apoio parlamentar para equilibrar as contas públicas e impulsionar a economia. Nessa conjuntura, não eram mais necessários os corpos paramilitares, nem os leais servidores do ex-presidente mão de ferro. Os cargos públicos foram ocupados por indicações ou por quem podia garantir a governabilidade de Prudente de Morais.  Categoria encontrada entre as lideranças políticas regionais e formada por republicanos históricos, de última hora e ainda antigos monarquistas.
Esse novo tempo republicano desencadeou descontentamentos, sobretudo entre os florianistas que tiveram seu poder radicalmente reduzido. Para sobreviver na nova conjuntura, deflagraram uma campanha de ataques ao presidente do país e de defesa dos soldados e das milícias voluntárias que haviam sido esquecidas após os serviços prestados e sacrifícios feitos à Pátria. Aos florianistas se uniram também a imprensa oposicionista. Com artigos diários tentavam desgastar o governo. Ora afirmavam que Prudente de Morais governava para os cafeicultores e era incapaz de deter a inflação e o aumento do custo de vida. Ora combatiam sua política de imigração com o argumento de que brasileiros perdiam emprego para os estrangeiros e acusavam-no de ser antinacionalista por ter reduzido as taxas alfandegárias, inundando o mercado de produtos importados e impedindo a indústria brasileira de florescer.
Rui Barbosa pronunciou-se sobre o momento nacional: sempre supus que tivéssemos feito uma lei para se impor a todas as leis, dominar vontades e calar todos os interesses; acreditei que tivéssemos decretado uma República efetivamente republicana, não esse tabuleiro verde-amarelo, onde força e fortuna jogam entre si o dever das posições, a honra dos princípios e o futuro do país.
Herculano se indignou com esse despudor que proferia verdades em frases patrióticas, esquecido da própria prática política. Assim, menos por crença no chefe da nação e mais por cálculo de que o ruim poderia ficar pior, continuou a tática de conter os arroubos da mocidade militar, oferecendo-lhes uma visão de futuro. E acreditava que não se tratava de uma tarefa perdida, uma vez que essa visão poderia formar adeptos do autêntico movimento revolucionário que eclodiria nas terras brasileiras – isto era só uma questão de tempo, a julgar a babel de interesses e de opinião que insuflava os ânimos nacionais naqueles dias.

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sábado, 14 de março de 2015

Capítulo Quinze

TEMPOS DE EXCEÇÃO


A aliança entre os revoltosos da Armada e os insurgentes Federalistas paralisou as aulas na Escola da Praia Vermelha. Herculano, recém-casado com Páscoa, foi deslocado para treinar voluntários que abasteceriam os batalhões patrióticos. Constituídos como força militar paralela ao Exército, essas unidades congregavam, em sua maioria, rapazes oriundos de extratos sociais humildes, alguns empregados até então, outros não, e muitos com o estudo interrompido pela necessidade precoce de trabalhar.
A primeira vez que se postou diante deles, Herculano se reconheceu em cada rosto e se angustiou. Por um átimo, inferiu as diferentes misérias que os levavam a se iludir com as causas da guerra civil. Nem a legalidade do mandato de Floriano, contestada pelos revoltosos da Armada, nem a autonomia estadual, propugnada pelos Federalistas, lhe indicava algo diferente da disputa do poder pelo poder. Tratava-se da luta entre os estabelecidos de outrora, enfraquecidos pela proclamação da República, e os entrantes, alçados a tal condição pela deposição da monarquia, dos quais a pedra no sapato de Herculano era Julho de Castilhos: invejava suas conquistas, mas suspeitava do improbo dos seus métodos de ação e da autenticidade das suas intenções revolucionárias.
Recuperou o controle das emoções e manteve uma fala prudente, neutra, orientada apenas para o ensino de táticas militares. Sabia que treinava neófitos, sedentos de melhores condições de vida e entusiastas de um governo que existia somente nas suas fantasias, estimuladas pelas campanhas florianistas. Tal especificidade os tornava potencialmente perigosos. A menor crítica podia ferir seus ouvidos, atiçar seu ufanismo e suscitar ideias de denunciar o que poderia lhes parecer palavras de um antinacionalista ou monarquista. Todo cuidado era pouco para não denegrir a reputação do marechal mão de ferro nem para turvar a esperança de um emprego futuro, ganho pela atuação no batalhão patriótico e por provas adicionais de civismo, a exemplo de delações aceitas com base em fiapos de suposições. Eram esses tempos sombrios, de exceção, de uma opressiva falta de sentido, emanada de tudo e entranhada em Herculano.
Certa manhã, ao conduzir um batalhão para ampliar a defesa da orla portuária, deu de cara com Euclides, que coordenava a construção de trincheiras no local. Se pudesse o teria evitado, atravessado que estava com a defesa que ele fizera da constitucionalidade do mandato do presidente, em um longo artigo de jornal. Sem escolha, aproximou-se e a assinatura de papeis os reuniu numa tenda. A memória da solidariedade falou mais alto e desavenças passadas foram relevadas por Euclides, que se mostrou deprimido. O sogro que conspirara a favor de Floriano, no instante seguinte, o combateu. Foi preso e o genro se abateu com o desenrolar dos fatos.
-- A minha vontade é me isolar em um recanto qualquer dos nossos sertões.
-- Peça uma licença.
-- Pedi, mas não consegui, por causa dessas malditas revoltas.
-- Bem piores que as Vendeias imaginadas.
Euclides sentiu a crítica ao artigo que escrevera, no qual comparara os adversários de Floriano com os rebeldes de Vendeia, uma comunidade da França. Decepcionados com os rumos da Revolução Francesa, esse grupo se opôs à convocação de continuar em luta e passou a combater a própria revolução.
-- Defendi o que julguei justo e me posicionei em retidão com o meu caráter. Era preciso impedir o despotismo de Deodoro.
-- Pelo que vejo endossa a indisciplina parlamentar.
-- Distúrbios fazem parte da vida política e um novo pacto estava em construção.
-- Entendo. E que nome dá a um governo que fuzila aqueles que o criticam?
-- Sabe bem que deploro essa violência.
-- Sei. Erra por fome de patriotismo, não por falha de caráter.
Os brios de Euclides encresparam-se.
-- Bote a cara para bater, Herculano, e mostre a que vem realmente.
-- Não me furtarei a agir no momento certo.
-- Boa desculpa para a sua inércia crítica, mas, lembre-se: a prudência também é omissão e concorre para o mal que assola a pátria.
-- Não se ajusta o governo com idealismo incauto e muito menos a partir de disputas de poder que só querem se valer do Estado.
-- Estou fora do seu banco de réus. Saiba que pude escolher qualquer posição no governo, mas preferi o previsto por lei: a prática na Central do Brasil que você não cumpriu. Cuide-se: sua redoma é de vidro.
-- Pena não ter escolhido uma posição no gabinete do presidente ou no Congresso. Conheceria melhor a natureza do poder e reveria suas atuais crenças parlamentares.
-- Desconsidero a orientação de uma pessoa que nunca se arrisca. Prefiro os meus erros a sua covardia.
-- De novo fala demais.
-- E sem disposição para te ouvir. Passar bem, disse Euclides e se afastou, deixando a sua acusação a atormentar o colega.
Empertigado, Herculano partiu logo depois. Os tormentos afloraram a sensação de impotência, de encurralamento. Combateu-os com o que a lógica o aconselhava: entre loucos e canalhas, o recomendável era prosseguir como um confiável cumpridor de ordens. Precisava contar com o tempo, com o surgimento de conjunturas adequadas para se unir a quem de direito e articular a mudança política aspirada.
Em fevereiro de 1894, uma bomba explodiu num jornal carioca defensor do presidente. Um senador pediu o fuzilamento dos responsáveis numa vingança aos florianistas mortos. Pelo jornal, Euclides repudiou o atentado e o pedido do senador. Alegou que num país nobilitado pela forma republicana, era inadmissível aliar-se à justa condenação do atentado a mesma arma criminosa. Houve réplica do senador, tréplica de Euclides, que acabou sendo enviado para servir no interior de Minas Gerais.  Conseguiu ir para o sertão! Ficará protegido, pensou Herculano ao saber da transferência. 
Março marcou a eleição direta do paulista Prudente de Morais, em meio da guerra civil. Em novembro, já empossado, o chefe da nação abriu as negociações para pacificar o sul do país, com a revolta da armada debelada meses atrás pelo seu antecessor.
Em dezembro, nasceu Sofia. O enternecimento ao pequeno ser afrouxou a rigidez do corpo de Herculano e, na distensão, pesou o cansaço do esforço feito para não sucumbir à ruinaria dos ideais. Cogitou a possibilidade de se alienar dos rumos do governo, de mudar para outro lugar e lá viver como um pacato professor, dedicado à família. Porém era-lhe impossível olhar-se no espelho e ver a imagem de um conformado com a derrota. Fitou a esposa adormecida ao lado e desejou que o sublime da maternidade a curasse da inexplicável tristeza sentida com o nascimento da filha. Mais do que nunca precisava da tranquilidade de um lar para recuperar-se das desilusões políticas. Mais do que nunca precisava descobrir como lutar pela República.

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quinta-feira, 12 de março de 2015

Capítulo Catorze

VIOLÊNCIA E BANCARROTA


Dezembro trouxe a notícia da morte de Pedro II. Herculano se abateu. Pesou-lhe a traição ao monarca e os resultados da traição. A revolução naufragara e, a cada dia, o atual governo se revelava mais tirânico. Talvez menos pela violência enrustida na natureza dúbia do novo presidente e mais pela sua condescendência com a violência praticada por auxiliares e asseclas em nome da manutenção da ordem. Chamados de Florianistas, esses civis e militares perseguiam opositores do presidente, em crimes acobertados, tolerados ou ignorados pelo governo. A delação tornou-se moeda de troca para obtenção de empregos públicos na cidade.
Preocupados com os acontecimentos, treze generais da terra e do mar dirigiram um manifesto a Floriano, pedindo o cumprimento do artigo da Carta Magna, que preconizava a realização de novas eleições, no caso de vagar a presidência antes do período de dois anos. Ponderaram que uma eleição, sem a pressão das forças armadas, restabeleceria a tranquilidade no país e o conceito internacional da República, abalado pelas perseguições políticas. Todos os treze foram exonerados. Houve reação na tribuna e na imprensa – e novas prisões.
O civil Francisco Glicério, líder do governo no Congresso e republicano histórico, rebateu a alegação de inconstitucionalidade do mandato presidencial.  Defendeu que a Constituição se referia à eleição pelo voto direto e sem disposição referente ao escrutínio anterior, que fora indireto. Parlamentares e jornalistas, que discordaram, foram presos, e a imprensa submetida à censura.
Em agosto, faleceu Deodoro e, ao revés do seu pedido de ser sepultado em trajes civis, baixou a cova em farda e com honras militares. O ano de 1892 terminou em meio à ruína dos alicerces financeiros da República. A bolsa quebrou, empresas faliram, o desemprego ampliou e o custo de vida foi às alturas.
Em fevereiro de 1893, um conflito armado estourou no Rio Grande do Sul, com a eleição direta do positivista Julio de Castilho à presidência do estado. Deposto por Floriano, em 91, o político voltou ao cargo com um golpe em 92; foi retirado com um contragolpe pouco tempo depois e, nesse momento, combatia seus adversários oriundos de antigas lideranças locais, denominados de federalistas. 
A atuação de Castilho pôs Herculano frente a frente com seus limites. Enquanto permanecia imobilizado pelos princípios da retidão, o correligionário de ideais galgara o poder e nele se mantinha com suspeitas desabonadoras aos seus métodos. Como edificar um Estado positivista a partir do adobe de tramas oportunistas que se reverterão no germe debilitador do futuro aspirado? Não podia se abater com comparações incomparáveis. Perseverar era a palavra de ordem.
O conflito no Rio Grande do Sul se espraiou para o estado do Paraná. Outra revolta eclodiu. O ex-ministro da marinha de Floriano e ex-participante do grupo que levara o presidente ao poder ocupou as águas da Guanabara e atacou a Fortaleza de Santa Cruz, empunhando a bandeira de reaver o império da constituição aviltado pelo chefe da nação. Tropas legais fizeram a defesa da Capital Federal e de Niterói, cidade do outro lado da baía. O país entrou em Estado de Sítio. O conflito recrudesceu. Os revoltosos da Capital Federal se uniram aos federalistas e invadiram o estado de Santa Catarina. O governo paulista negociou apoio militar ao chefe da nação, em troca da retirada da sua candidatura à próxima eleição presidencial. Acordo firmado, Castilho, o inimigo de ontem de Floriano, tornou-se seu aliado desses dias.

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Capítulo Treze

GOLPE BRANCO


Em janeiro de 91, faleceu Benjamin Constant. Em fevereiro, a Carta Magna foi promulgada pelos constituintes, empossados em novembro último, entre os quais faziam parte os integrantes da Junta Provisória, com a exceção de Benjamin e de Deodoro.
Promiscuidade, sentenciou Herculano por essa época, indignado com o conflito de interesses inscrito no acúmulo das funções. Tal escrúpulo ou observação, entretanto, não teve eco em muitos, pelo menos a ponto de se tornar uma questão jurídica ou ética impeditiva para a dupla atuação. Tanto que o grupo conciliou as posições, até dias antes da morte do ministro militar, quando se demitiram em conjunto do cargo executivo.
A demissão soou mal para Herculano. Afinal ocorrera não por causa do respeito ao princípio republicano de separação entre os poderes, mas, sim, em virtude da oposição a um projeto defendido pelo Marechal e elaborado em bases similares a outros que os próprios aprovaram. Pressentiu um golpe branco a caminho; inquieto, acompanhou o desenrolar dos acontecimentos.
Os constituintes transformaram a Assembleia em Congresso Nacional e prorrogaram por três anos o seu mandato. Começou, então, o processo eleitoral. Num escrutínio indireto, regido pelo critério da vitória do mais votado, independente de chapa, a maioria (57%) elegeu Deodoro para a chefia da nação e proporção maior (68%) Floriano, candidato à vice-presidente da chapa adversária, encabeçada por Prudente de Morais. A entrada de Deodoro na cerimônia de posse ocorreu em silêncio sepulcral, a de Floriano, com efusivas aclamações, num prenúncio do que se manifestou rapidamente.
Moções e pedidos de informação sobre atos do poder Executivo eram formulados e questionados a cada seção pela Câmara e pelo Senado. Os ânimos do presidente exaltaram-se com os vetos recebidos aos seus projetos: -- isso é indisciplina parlamentar. Exorbitam nas suas atribuições; legislaram em causa própria quando prorrogaram seus mandatos. Preciso do poder moderador para governar, clamava o presidente.
A soberania popular rejeitou nova emissão de moedas e Deodoro dissolveu o Congresso. Uma revolução se pôs em marcha no país e o marechal renunciou para não deixar atear a guerra civil. Floriano Peixoto assumiu o poder executivo e depôs todos os presidentes das unidades federativas que haviam apoiado aquela dissolução. A agitação política se espalhou pelo país com defesas contra e a favor dos governantes depostos. Na tribuna do senado, Rui Barbosa protestou:
-- De uma ditadura que dissolve o Congresso apoiando-se na fragilidade dos governos locais, para outra que dissolve os governos locais, apoiando-se no Congresso restabelecido, não há progresso apreciável.
Herculano reconheceu má-fé nessa declaração e a prova de uma reviravolta no golpe branco recém-dado: a corrente congregada por Rui Barbosa havia perdido força ao enfraquecer de vez o inepto Marechal Deodoro e fora alijada do poder. O tiro saíra pela culatra e a República encontrava-se à deriva.

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terça-feira, 10 de março de 2015

Capítulo Doze

O DA TRISTE FIGURA


Certa manhã, depois de uma tromba d’água, Herculano abriu a janela da sua sala na Escola. Ao ar fresco, quedou em meditação e ouviu uma voz atrás de si.
-- Assim à aldeia volta o da triste figura, ao tardo caminhar do Rocinante lento: no arcabouço dobrado, um grande desalento; no entristecido olhar, uns laivos de loucura...
A satisfação de Herculano em rever Euclides, admitido à Escola, congelou-se ante as palavras declamadas com a ironia da amargura.
-- Sonhos, a glória, o amor, a alcantilada altura. Do ideal e da Fé, tudo isto num momento, a rolar, a rolar, num desmoronamento, entre os risos boçais do Bacharel e o Cura. Mas, certo, ó D. Quixote, ainda foi clemente contigo a sorte, ao pôr nesse teu cérebro oco o brilho da Ilusão do espírito doente; porque há cousa pior: é o ir-se a pouco e pouco perdendo, qual perdeste, um ideal ardente e ardentes ilusões - e não se ficar louco! Receba as saudações autorais do seu colega da fracassada causa republicana.
-- Pelo que vejo a vocação para as letras floresceu de vez.
-- Inspirada no esmagamento dos ideais, mas sem a inteireza emocional que a Arte exige, dividido que estou para sobreviver.
-- As melhores obras são inspiradas no drama humano.
-- Um consolo para as nossas desditas.
-- Como está?
-- De volta e casado.
-- Fiquei sabendo. Parabéns.
-- Obrigado. E você, ainda um solteirão?
-- Por pouco tempo.
-- Bom! Se não podemos servir à Pátria, vamos pelo menos servir à família.
-- Quais são as novas?
-- Nenhuma. Retraí-me por completo.
-- Recuar é uma forma de se fortalecer.
-- O meu objetivo. Quero estudar, tratar de formar melhor o meu espírito e coração e, mais tarde, passada essa febre egoística e ruim, que parece alucinar a todos, aparecerei, se puder e se me quiserem. Mas não nos dias atuais. Recuso-me a compactuar com esse desmoralizado regime de especulação.
-- Também penso como você.
-- Creio que se não fossem meus ideais estaria a sofrer muito mais ante a esse descalabro assombroso que se transformou o governo. Pensa-se em tudo, cogita-se em tudo, menos na Pátria.
-- Está sendo uma lição difícil.
-- A velha sociedade não teve energia para transformar a revolução numa República fecunda. Até Benjamin comporta-se como um político qualquer.
-- Poupe-o de um julgamento tão duro.
-- Não sabe o quanto me dói fazê-lo.
-- Respeite então a sua dor e ao mestre que o instruiu. Foi por mérito que ele o reintegrou ao Exército e à Escola, e não por compadrismos.
-- Ao mesmo tempo, o que fez? Concessões ao continuísmo no qual nada valem as virtudes que mais apregoou.
-- Sem autoridade é impossível ser intransigente com os desvios.
-- Como sem autoridade? Está no poder com a faca e o queijo na mão.
-- As aparências enganam e encobrem também desgostos similares aos seus. 
-- Devo supor que sabe mais do que eu?
-- Provavelmente sei exatamente o que você sabe.
Euclides retrucou com um esgar meio mordaz.
-- Então menos pompa em expressar uma segurança que não possui.
-- Sinto se vê assim.
-- É o que a sua atitude fala.
-- Eu não e sim o que leio dos fatos.
-- Eles falam por si.
-- Mas não explicam porque a esfinge substituiu Benjamin na Pasta da Guerra. Pense nisso, nas implicações para o exército e também na possibilidade perdida de formarmos soldados-cidadãos.
-- Nada está perdido nesse sentido.
-- É o que veremos.
A divergência entre os dois antecipou o final do encontro. Pelo corredor, Euclides seguiu incomodado com a análise do colega. Era-lhe impossível julgar de outro modo um homem em quem tanto se confiou e que se despiu dos ideais mais nobres para servir ao regime de privilégios e especulação. Lastimavelmente a decepção governava a imagem do mestre, não o exemplo de um espírito retilíneo, acima de qualquer suspeita.
Na sala Herculano também procurava se livrar do efeito das desilusões alheias. Resistia a admitir a inadequação entre a lógica dos ideais e a da realidade que evocava o pragmatismo, como forma de conquistar o espaço necessário ao cumprimento da sua missão de servir à Pátria. Não. O fim não pode justificar os meios. Venceria com tino, firmeza e atitudes ilibadas. Esse era o seu compromisso, seu esteio no terremoto das improbidades que solapavam a marcha evolutiva do país.

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