terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Capítulo Dezenove

NA FRONTEIRA DO ILÍCITO


De novo, a manhã. Páscoa e Sofia se despedem da ama, que avisa que irá caminhar com elas. O impasse se apresenta e também a tentativa de dissolvê-lo.
-- Sofia, por favor, vá buscar as sombrinhas.
-- Mas pra quê? Estamos de chapéu!
-- Será melhor.
A menina obedece, mas para no alto da escada. De lá, vigia o que acontece. 
-- Venha, mas sem resmungar nem empacar no meio do caminho.
-- Vamos com um pé e voltamos no outro.
-- Com uma parada entre os dois, para além das pedras.
-- Não é o que tô pensando.
-- Pois então não pense.
-- Deixa o Capitão saber!
-- Não saberá, a menos que conte e, se contar, sabe o triste fim que terei.
-- Valei-me, Nossa Senhora e todos os orixás! Isso nunca.
-- Então não se oponha.
-- Mas filha minha, por um triz de nada, a gente escorrega no perigo.
-- Fique com seus medos que já tenho os meus. Se quiser vir, venha e me ajude a viver a luz desses breves dias.
-- Breves mesmo?
-- Mais longos que os da sua noite de Carnaval.
O rosto de Quitéria distende-se de assombro. Pensou que ninguém soubesse que ela e Tião haviam deixado o sobrado desguarnecido, para ver as brincadeiras do Zé Pereira na cidade.
-- O Capitão não pode saber!
-- Não saberá. Só falei pra você entender que eu também preciso de alegria.
-- Ó filha, o que me pede, ainda mais em véspera de Quaresma?
-- Por favor, Quitéria.
A ama hesita sem saber o que é pior, se minguar na reclusão sem ter provado a aventura do amor ou se sofrer as desventuras do proibido.
-- Que Oxalá nos proteja! Vamos.
Páscoa a abraça, agradecida, enquanto Sofia que, do alto da escada, já dava o passeio por perdido, entende que deve ir correndo buscar as sombrinhas. É o que faz, como um azougue.
Desse passeio em diante, Quitéria passa a esconder de Tião os detalhes de todos os outros. E conta diligentemente os dias para o fim da quarentena, com a expectativa de que o retorno da família para Botafogo a livre de suas omissões e a sua protegida dos tais breves dias.  Lá tudo será diferente, pensa, ora e vigia.
Qual não é seu desânimo quando Herculano decide postergar a estada no arraial, a despeito de Dr. Eugênio ter dado alta à paciente. Nem o início para breve das aulas de Sofia, lembrado por Quitéria, demove o patrão.
-- Isso pode esperar.
Tudo o mais, não. O que tem urgência para Herculano são seus compromissos na cidade e é inegável que aprecia a liberdade que desfruta durante a semana, sem ter que dar a menor satisfação dos seus horários em casa. Da mesma forma aprecia e quer prolongar um pouco mais a privacidade do casarão de Botafogo somente para si. Gosta do silêncio e precisa de reclusão para planejar cada passo da consecução dos objetivos patrióticos que enobrecem sua alma e com os quais está envolvido. A família fica.
Ao longo do novo período, as três passam a se encontrar com Grego também na casa dele. Sentadas à mesa da marcenaria, um puxado do imóvel, ouvem sobre o estrangeiro, companhias líricas, enredos de óperas, além de casos engraçados da vida.
Páscoa entende que somente o belo e o aprazível estimulam esse homem de olhar penetrante, modos calmos e à vontade com a sua natureza, vestido sempre com roupas leves e confortáveis. Política e poder jamais fariam sua alma vibrar. Tão diferente de Herculano! Começa a se ver no arranjo dessa existência, a imaginar como seria fazer parte dessa casa na curva do morro. Tudo em sonhos, em devaneios, porque no concreto, na realidade tangível, continua a trafegar em torno do desejo, no limite das sensações despertadas por essa aventura proibida. Esse é o seu deleite.
      O mesmo não ocorre com Grego. Está louco para ficar a sós com Páscoa, mas não consegue por causa da presença constante de Quitéria e Sofia, e ainda da falta de empenho dela própria para criar essa oportunidade. Incomoda-o também a percepção de que somente ele se revela, como se o único modo de conhecê-la fosse a partir do que ele tem a dizer. Páscoa pouco fala de si e desdobra o tema ouvido em novas perguntas que o fazem ficar, sempre, com a palavra. Quando dá por si, vê que falou o tempo todo e é hora das três partirem. Porém releva a questão: Não é fácil para uma mulher casada trocar confidências, menos ainda, lançar-se nos braços de outro homem. Assim, dança conforme a música. E assim transcorrem os dias pós-quarentena.


Copyright © 2013 by Maria Tereza O. S. Campos
Copyright de adaptação para Cinema e TV © 2005 by Maria Tereza O. S. Campos

Capítulo Dezoito

DA VONTADE LIVRE


Os gritos alegres de Sofia vibram na praia. O sol se eleva por detrás do morro, que cobre de sombra fresca o novo território pelo qual Páscoa se move chapinhando na água. O bem-estar brota da sola dos pés descalços, sobe pelas pernas, redemoinha no ventre e segue em carreira para o coração que bombeia a tensão de transgredir e a excitação de viver o prazer. 
Páscoa observa o cuidado com que Grego guia Sofia em sua descoberta do mar e admira também a coragem da filha. Ora a pequena dá as costas à passagem da onda e é jogada nos braços do banhista, onde se acomoda como se tivesse crescido entre eles, ora cai solapada pela turbulência da arrebentação – e é agarrada pela mão rápida de Grego. Tesa e cega de água e sal, Sofia respira e se inteira de si. Deixar o mar? Que nada! Visão e fôlego recuperados, segurança firmada, quer mais. E se lança em nova brincadeira, com Pã, que nada ao redor.
Páscoa escuta a alegria que vem de lá e a que seu corpo murmura. Sofia nunca esteve tão feliz e ela nunca se sentiu tão bem. Esse sentir vale o risco. É crueldade privar alguém do prazer. Um mínimo de felicidade precisa ser vivido. E assim é. Nesta manhã pagã, em que todos parecem dormir até mais tarde, o abre-alas da liberdade ganha passagem, une-se do mar à terra e desfila cheio de novas claridades.
Sofia seca-se entre corridas com Pã, enquanto Páscoa e Grego palmilham a praia do conhecimento.
-- O que trouxe o senhor para o Rio?
-- Uma companhia de teatro lírico contratou meus serviços e o Brasil estava no roteiro das apresentações.
O tipo de contratação intriga a mulher.
-- Serviço de banhista?
-- Não. Reparo instrumentos de cordas e também faço violinos. Sou um luthier.
Páscoa entende onde aquelas mãos aprenderam a pegar com delicadeza e precisão. 
-- Nunca conheci um artesão da música.
-- Ao vosso dispor.
Encabulada, desvia o olhar. Grego percebe o decoro e se revela um pouco mais.
-- Gosto muito de madeira e também de observar e extrair o som de cada coisa. Daí para juntar os dois gostos foi um pulo só.
-- Possui belos dons.
-- Obrigado. Acho que os homens são como árvores. O lenho de cada um é próprio para fazer uma coisa e não outra. Descobri cedo qual era o meu.
-- Que boa fortuna!
-- Foi sim. Pôs no meu caminho um mestre que me ensinou dar bom uso aos meus dons. Abandonei os costumes – há muito os homens da minha família são comerciantes dos mares. Aí uni a vida com o destino: o rumo com a oportunidade, entende?
-- Entendo, responde, ignorante de como realizar essa fascinante operação.
-- De Atenas fui para Paris estudar o ofício, depois aprimorei a arte em Cremona, na Itália. Aprendi muito, trabalhei bastante, mas sentia que lá não era o meu porto. Aconteceu então o convite da companhia e aqui aportei. Fiquei encantado com esta enseada e entendi o que o destino me acenava. Escolhi a ponta de praia para construir minha casa. Moro logo ali, ao pé da curva do morro, onde tenho minha luteraria. Trabalho para os músicos da cidade e para os de fora que chegam.
-- Acha que encontrou o seu porto?
-- Agora mais que nunca.
A emoção fervilha em Páscoa. Volve o rosto para o mar e percebe a nulidade do recato. Um sonho deve ser vivido na sua instantânea duração. Tateia no desbravamento do outro, pressionada por uma pergunta que não quer se calar.
-- Trouxe sua família também para cá?
-- Não. De lá eles não saem. São muito apegados. 
-- Sei... O senhor é casado?
A curiosidade nua o surpreende.
-- Sou solteiro.
Como um vento forte que abre a janela, Páscoa escancara aquela nudez.
-- Nunca amou?
É o verbo feito carne, conclui Grego, observando os olhos negros amendoados. Julga arriscado deixá-los sem resposta. Mas como dizer o que não se diz, sobretudo quando se faz a corte a uma mulher casada? Escolhe sua melhor saída.
-- O amor tem me escapado.
-- Como assim?
Grego teme dizer mais, ainda que aquele olhar insista em atrair seus segredos.
-- Ora...
-- O amor não permite ligar vida ao destino?
-- Permite, mas, às vezes, é arrebatador. Passa como vento. Ou, frágil, se esvai como o aroma de um perfume. Ou é tão difícil que finda, até que outro surja com novas promessas de eternidade, conclui Grego, estupefato consigo mesmo. O que tem esta mulher, que me extrai uma confidência dessas?
Páscoa experimenta uma sensação ambivalente. Ao mesmo tempo em que a resposta a desconcertou, pelo número de amores revelados, gostou de saber, de uma só vez, a verdade desse ser: um homem de sentimentos fartos. Retomado o controle, quer entender melhor essa volubilidade que desafia suas crenças românticas.
-- Se há sempre uma dificuldade e um fim tão certos, não parece sem sentido entregar-se ao amor?
-- Evitar suas dores é deixar de viver suas alegrias. Não compensa. O amor é uma dádiva da vida. Transforma o que toca.
A declaração remexe os sentimentos mais íntimos de Páscoa. Traz à tona o abandono de si, dá sentido à sua cura e incita o desejo, ainda que proibido, de usufruir da dádiva do amor. Na força do tumulto, na tensão criada entre a vontade e a negação, ignora tudo o que poderia desviá-la de acreditar no faz-de-conta que são possíveis um para o outro. Quer desfrutar esse deleite nem que seja como uma pintura, que se aprecia sem tocar. Ousa dizer:
-- O amor lhe cai bem.
-- Também à senhora.
Encalorada do decoro que confronta, Páscoa aprofunda o entendimento.
-- Descreveu-me tantas formas de amar. Qual acha que melhor me assenta?
-- A que lhe apraz e revele por inteiro o seu coração.
Ah, a ilusão da vontade livre!
O olhar amendoado como um lago negro rutilante espelha o outro, rasgado de desejo. Grego toma-lhe a mão.
-- A senhora é muito bela.
-- Possui olhos sensíveis.
A vontade do homem é abraçar a mulher, mas a ocasião não é propícia. Nem a mão se mantém onde estava, escapa suavemente, e Páscoa volta a andar. Grego a segue, no mesmo ritmo, cheio de atenções e respondendo a todas as suas curiosidades.
-- Por que um artesão da música é também um banhista?
-- Para renovar a vida.
Páscoa compreende. Realmente está diante de um artesão do prazer.
-- Nunca teme o mar?
-- Sim. Ele é igual à gente. Tem humor e simpatias. Às vezes, claras e rápidas, às vezes, demoradas e suspeitas.
-- Como lida com tanta inconstância e perigo?
-- Respeitando o seu modo de ser. É da natureza do mar ser assim – e contra a natureza não há como lutar.
Quando Páscoa cruza a fronteira de volta, com uma Sofia falante, toda sal, areia e alegria, as palavras de Grego ainda ecoam turbulentas por dentro: Contra a natureza não há como lutar. Impossível pôr um ponto final nessas manhãs luminosas. Quer rever, conhecer melhor esse homem que lhe surgiu como um bálsamo de frescor na alma machucada e que parece incitá-la a livrar-se dos seus medos, a conquistar sua liberdade e a ouvir seu coração. Quer compartilhar suas certezas, descobrir com ele como se entender com a sua natureza, como ligar a vida ao destino. Olha para as grandes pedras negras – um quase nada que a separa do território onde seus desejos podem ser concretizados. Com essa imagem já íntima, passa pelo portão do sobrado com Sofia e segue para o quintal. 
     Tião e Quitéria vêm ao encontro delas. A areia grudada nos cabelos da menina e a roupa ainda úmida chamam a atenção. Indiferentes à ladainha de perguntas da ama, mãe e filha chegam ao poço, onde um balde cheio de água está. A princípio, Páscoa molha o rosto, mas, depois, abrasada de diferentes calores, entorna a água sobre si. O corpo quente se arrepia – e a decisão brilha. Arriscará. Quer avançar pelo novo território do modo que melhor lhe convier e até aonde puder. Sofia também quer se molhar. Por que não? Páscoa enche o balde e molha a filha. Boquiabertos, Tião e Quitéria assistem ao aparente desvario da cura. A dúvida nasce em Quitéria. 


Copyright © 2013 by Maria Tereza O. S. Campos
Copyright de adaptação para Cinema e TV © 2005 by Maria Tereza O. S. Campos

Capítulo Dezessete

TRILHAS!


O mar está azul, azul, e bravo. Vagas gordas, grandes, se levantam, quebram-se pesadas e esparramam-se agitadas sobre a areia. Cautelosas, Páscoa e Sofia caminham por ali. Nunca estiveram próximas de um mar tão bravo assim. Mas o sol está tão brilhante, a areia tão firme, a própria braveza do mar é tão bela, que dão de ombros a esse rompante. É um mal-estar passageiro, acham. E, para encorajá-las a prosseguir nessa vizinhança, há ainda as conchas que descobrem e recolhem encantadas. Pequenas ou grandes, abertas ou espiraladas, rosadas, carameladas ou brancas, estendem-se pela areia afora, como um colar comprido de contas esparsas. Até parece uma trilha, pensa Páscoa. Daí em diante, tudo acontece muito depressa: a mãe pede para a filha deixar na praia as preciosidades coletadas e ir correndo ver algo com ela. A menina fica insegura.
-- Vão sumir!
-- Não vão, não. Pegamos tudo depois.
As conchas são retiradas apressadamente do avental da garota e postas no chão. Em passos rápidos, as duas caminham. Ao longo do percurso, os olhos passeiam entre as novas descobertas sobre a areia e a pedreira negra que se aproxima. Até que a mais bela concha é vista apoiada na base da pedra e vulnerável ao humor caprichoso do mar. Páscoa aguarda o recuo das águas espumantes e, num impulso, recolhe a concha e cruza a fronteira, puxando Sofia pela mão.
Mal os pés pisam a areia seca do outro lado, o espaço ultrapassado é tomado por nova onda. Mãe e filha viram o rosto para trás, avaliando o perigo vencido. Quando os desviram na direção do areal, são surpreendidas pelo banhista, parado a poucos braços de distância, com Pã ao lado.
Nesse primeiro instante, os olhos do homem e da mulher não se desgrudam um do outro. Páscoa reconhece, no corpo sem bravatas que a acolheu, vestido dessa vez com uma roupa clara e leve, a mesma disponibilidade para oferecer na terra o bem que lhe ofertou no mar. O banhista se inteira da leveza arredondada e macia que teve em seus braços, exalando agora brilho e cor, e trazendo junto ao peito, que arfou em uníssono com o seu, a concha resgatada. Sofia aguarda, ressabiada diante da emoção que, de algum modo, lhe cheira um perigo qualquer.
O banhista libera Pã da coleira e o cão fareja as visitantes. A menina arrisca um carinho no cachorro, que a lambe. Sorrisos se abrem. O homem lança um graveto. Pã corre e volta com o objeto preso aos dentes. Sofia também o arremessa e, de lançamento em lançamento, se distancia, deixando a mãe e o banhista bem para trás.
-- É muito bom ver a senhora tão bem.
Um sorriso é a resposta e nova indagação quebra o silêncio.
-- Gosta de conchas?
-- Muito. Nunca vi uma tão linda quanto esta.
A voz, até então desconhecida, enche os ouvidos do banhista. É voz de diva, pensa e imagina toda a praia como um palco, no qual Páscoa surge banhada de luz, cantando em êxtase a dissonante dor do mundo.
-- Como o senhor se chama?
-- Nikos Andreadis, responde despertado do devaneio.
-- É um nome...
-- Grego, como todos me chamam por aqui. Nasci em Atenas
Páscoa se encanta com a origem desse novo mundo que contempla: devo contar que meu pai era de Cádiz, um estrangeiro como ele? Ou perguntar: o que o trouxe de tão longe, Sr. Andreadis? Ou apenas agradecer. Obrigada, Grego, pelo bem que me fez. Quis muito vê-lo de novo e pedir para levar minha filha ao banho de mar.
Tanta indecisão e reserva não disfarça o que já nasceu íntimo.
-- Chamo-me Páscoa Mourão Dias.
-- Páscoa... Que nome lindo, sonoro. Nasceu nessa data?
-- Sim, diz e se cala.
Não quer contar a verdadeira razão do seu nome: a homenagem do pai à esposa fervorosa, que morreu num domingo pascal, dias após o parto. Nem quer que Grego saiba o ponto de partida do seu mal: a vida trocada pela morte. Ou que se aperceba de que, durante este instante mágico que vivem, outras trocas do destino podem estar acontecendo. Não. Não quer turvar com nenhuma sombra a alegria que sente. E tem pressa, o tempo urge. Talvez Quitéria e Tião já tenham percebido sua ausência na praia do arraial. Não pode adiar o que quer pedir.
-- Pode levar a minha filha ao mar?
-- A menina está tão bem, comenta surpreso com o pedido.
-- Quero dar-lhe a alegria de brincar na água.
-- Será uma honra. Levarei a menina... E também a senhora, sempre que desejar.
Páscoa saboreia a perspectiva do “sempre que desejar”. Sabe que a liberdade de viver um desejo é um bem raro e finito, que se esvairá após viver o risco que se dispõe a correr para presentear Sofia, e também a si própria, com um pouco mais de prazer. Anuncia a partida.
-- Preciso ir.
-- Que pena não poder ficar. Gostaria de acompanhá-la. Mas sabe que não posso.
A fala oficializa a transgressão em curso. Páscoa enrubesce e chama a filha. Grego percebe a inquietude e desencadeia outra emoção quando pega a concha e a ergue junto ao ouvido dela. Sorri ao ouvir a exclamação:
-- O som do mar!
-- Para estar sempre com a senhora.
Os olhos navegam no mistério um do outro, até que a menina chega. A concha é devolvida e o melhor caminho de volta pensado.
-- Não preferem contornar as pedras pelo alto da praia?
-- Ah, não! Lá não tem graça, não tem ondas, protesta Sofia.
Páscoa também deseja refazer o mesmo caminho, sentir que retorna pela fronteira atravessada. Acompanha a dianteira tomada pela filha e Grego as segue. Perto das pedras, fitam o recuo das águas.
-- Agora! Vão.
Páscoa e Sofia correm. Espumantes, as águas tomam o espaço atravessado, enquanto o corpo de mãe se vira para trás, num último adeus. Afasta-se, puxada pela mão da filha, que deseja recolher as preciosidades deixadas na praia. De concha em concha recolhida, as duas trilham o retorno.
-- Amanhã vamos pegar mais, não vamos?
Páscoa hesita ante a resposta que quer dar. Vence o medo.
-- Vamos, sim. E, se quiser, poderá também brincar no mar.
Espantada, a pequena para de andar.
-- Com o banhista?
-- Com o senhor Nikos. E eu acompanharei vocês da praia.
-- Mas eu não estou doente!
-- Melhor, poderá aproveitar ainda mais.
-- E o sono do mar?
-- Não vai acontecer. Você é uma menina forte. Quer?
-- Papai vai deixar?
Um tremor agita Páscoa.
-- Melhor ele não saber nem sobre hoje, nem sobre amanhã.
Sofia entende a razão. O banho de mar às avessas tornou o banhista um desafeto do pai. Sente-se dividida entre a obediência filial e a atraente proposta. Páscoa percebe a insegurança.
-- Se quiser, não precisa ir. Mas acho que irá gostar.
Temendo decepcionar a mãe e perder a oportunidade de brincar no mar, decide.
-- Eu vou e não conto nada para ninguém.
-- Nem para Quitéria. Promete?
-- Prometo.
-- Amanhã terá a melhor brincadeira do mundo, diz e afaga o rosto da filha.
Tudo é muito para Sofia: o afago, o segredo, as perspectivas do amanhã. E a menina assume ali outro compromisso e dessa vez consigo mesma: de jamais contar nada da sua mãe para ninguém e de fazer o que estiver ao seu alcance para tê-la sempre assim, amorosa do jeito que está.
      Tudo também é muito para Páscoa. Pediu para Sofia transgredir a lei paterna de nada omitir, para satisfazer o desejo de proporcionar a ela a descoberta do prazer do mar. Mas como fazer diferente, se é no espaço mínimo que se move e é nesse espaço reduzido que Sofia também deverá aprender a se mover? Empurra para os cantos de si o medo de ser a perdição da filha e caminha carregando a certeza do que quer fazer. 


Copyright © 2013 by Maria Tereza O. S. Campos
Copyright de adaptação para Cinema e TV © 2005 by Maria Tereza O. S. Campos

Capítulo Dezesseis

A PARTIDA ANTECIPADA


Herculano chega de Botafogo, preocupado com a reforma urbana que está em curso na cidade. Julga que é uma cara cenografia para afrancesar o Rio à custa do endividamento público e em benefício dos banqueiros ingleses e empreiteiros locais. De noite, durante a leitura do jornal na sala, reflete em voz alta, sentado diante da esposa e da filha, ambas com os olhos no bordado.
-- É preciso acabar com essa arbitrariedade. Restituir a integridade da República!
Tão longe do sobrado, das fronteiras do lar, essas coisas da cidade não afetam as duas, especialmente neste momento em que se preocupam em como será o passeio de amanhã em companhia de Herculano. Não se enganam: o passeio se realiza nos moldes temidos. Retoma a antiga linha reta pela rua-praia, em passos disciplinados, quase marciais. As roupas também recuperam o peso de antes e as horas seguintes tornam-se novamente previsíveis e arrastadas, enquanto a tensão boia no ar.
Azulão chega de tarde. O Capitão lhe dá botas para engraxar e, no quintal, assunta sobre o paradeiro do banhista. O menino diz que ninguém sabe onde ele está. Termina o serviço. Guarda os tostões que recebeu em pagamento, lança um olhar curioso para o interior do sobrado e segue com a flauta acordada para o outro lado das pedras.
À mesa do jantar, Herculano avisa que partirá, na primeira hora da manhã seguinte, para atender compromissos na cidade. Como de costume, encerra o assunto, sem mais explicações.
Páscoa surpreende-se com a sua própria reação. Não se ressentiu com a autonomia indiferente do marido, que tantas vezes a magoou. Nem a agenda misteriosa em pleno feriado de Carnaval a instigou. Ao contrário, apreciou a circunstância que lhe permite retomar o passeio matinal do jeito que mais gosta de fazer. 
      O comunicado da partida antecipada também aliviou Sofia e, em seguida, Quitéria e Tião. O casal perdeu as brincadeiras do Zé Pereira desta noite, mas não perderá as de amanhã ou de depois. Seus planos são ouvidos pela menina e confidenciados à mãe, que devaneia se o banhista também gosta dessas folias. 


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Capítulo Quinze

TANTOS MARES


Os passeios matinais ganham novo ritmo e cor, sem Herculano. As roupas tornam-se leves e o caminhar sobre as areias transforma-se em uma trilha serpenteada, sem riscado certo nem pressa, que adentra a praia um pouco mais a cada dia.
Quitéria acompanha de longe e de quando em vez. Na maior parte do tempo, limita-se a chegar ao portão, espichar o pescoço, conferir a ordem desordenada que patrocina e retornar para os serviços do dia. Outras vezes nem se dá a tanto trabalho. Resolve tudo da janela mesmo, quando Tião, encarregado também da vigia, pergunta sobre a sinhá e a menina.
-- Tão lá, ó! Que mal há?
-- É. Tá tudo certo. Vou pra roça.
A cada manhã, mais reservas, desconhecimentos e tristezas ficam pela praia. O mar os leva embora e deixa em seu lugar novas possibilidades e descobertas.
-- Veja, diz Sofia pinçando uma concha da areia molhada.
-- É linda, exclama Páscoa.
Levadas pela curiosidade, as mãos exploram o delicado achado e se tocam. Auxiliadas pelos olhares tímidos, oficializam a alegria que sentiram com aquele toque e a que sentem de estar juntas. Durante essa distração afetuosa, a arrebentação toma de assalto os pés. Em meio ao turbilhão da água e entre gritos febris, as mãos se entrelaçam, ajudando os corpos a se firmar e depois a correr para a segurança da areia seca. Lá, o susto evapora e as mãos se soltam para segurar a barriga de tanto que se ri e se lembra. Passada a algazarra, é hora de remediar o desalinho: torcem a barra da saia, retiram os sapatos e, com eles deixados na areia, seguem em nova estrepolia. Ora as mãos cortam o ar, ora apanham o chapéu, que teima em voar, e então suspendem as saias, que é para as pernas correrem melhor. Nunca essas mãos estiveram tão próximas e de comum acordo como ao longo desses instantes aventurosos.
Na sombra das pedras negras, entregam-se ao relaxamento. Sobre um degrau de areia, Páscoa e Sofia sentam-se, resfolegantes, coradas de energia e bem-estar. Porém na mãe algo mais palpita: a emoção de se saber tão próxima da fronteira natural com as terras além.  Um navio desponta no mar e Páscoa fala a primeira coisa que lhe vem à mente tentando se concentrar na filha.
-- Para onde ele vai?
-- Para o Congo, responde Sofia, sem pestanejar.
A julgar pelas histórias de Tião, o Congo é o lugar mais remoto que a sua imaginação infantil pode conceber.
Como eu, constata Páscoa, lembrando-se de que dera a mesma resposta ao pai, quando pequena. A semelhança perturba e o resgate chega.
-- Agora é a minha vez. Pra onde o navio vai?
-- Para o mundo sem fim, diz a mãe, com uma expressão de assombro humorado que torna o momento ainda mais fantástico para Sofia.
Enquanto pensa nessa eternidade geográfica, a menina roça os pés na areia. Páscoa a imita. Juntinhos, os pés das duas escavam e se cobrem, numa tola brincadeira. Sofia pergunta se esse não é o melhor passeio que fizeram. Páscoa diz que sim. A filha estende-se na areia e contempla o céu azul, em completa felicidade.
-- Deita também.
Páscoa hesita. Será adequado?
-- É bom, insiste a menina.
Vagarosamente, a mãe se deita. A sensação de prazer despertada pela terra firme e fresca percorre vértebra por vértebra da coluna e se irradia pelo corpo. A vida assim é tão leve. A prazerosa leveza suscita também reminiscências de brandura similar... E Sofia aponta para o céu.
-- Olha aquela nuvem.
-- Qual?
-- Aquela com cara de risada.
Novos risos, novas graças, um novo modo de ser e estar são experimentados. A garota se põe de pé.
-- Vamos subir nas pedras?  
O receio paralisa Páscoa. Não posso. O banhista... Pensamento e insegurança são desmobilizados pela travessura que se deslancha e a lança em direção à filha.
-- Cuidado.
-- É fácil, olha!
-- Espera, pede Páscoa, apoiando o pequeno corpo.
A menina sente o conforto do contato que a protege e a impulsiona para o estreito degrau de pedra. Vira-se e acha a mãe ainda mais bela. Estende as mãos – é a sua vez de apoiá-la. Entre suportes e dianteiras revezadas, as duas escalam as pedras, vibrando com a façanha. Param no alto, tomadas de prazer e com a visão das terras além.
     Num impulso, Sofia se enlaça à cintura de Páscoa e afunda a cabeça no seu ventre. Corpos saudosos de sempre se abraçam, entregues à ressonância de tantos mares. Lágrimas vêm ajudá-las a esvair dores e curar feridas, desencontros, ausências. Lavando faltas, culpas e medos nessas águas, Páscoa envolve Sofia com o amor que tanto temeu. Como o bem pode sobreviver ao mal? Deseja dar à filha o prazer do mar. 


Copyright © 2013 by Maria Tereza O. S. Campos
Copyright de adaptação para Cinema e TV © 2005 by Maria Tereza O. S. Campos

Capítulo Quatorze

O PASSEIO TERAPÊUTICO


Quão longa é a curta espera! Compenetradas, Páscoa e Sofia estão sentadas no sofá da sala, com as mãos enluvadas sobrepostas no cabo de suas sombrinhas, mantidas de pé sobre o chão. Aguardam o horário do passeio terapêutico. Os olhos... Ah, os olhos! Esses não param. Minuto a minuto conferem o avançar dos ponteiros do relógio. Só falta um pouco mais... Um pouquinho só... Agora... E a aguardada badalada da quinta-hora da manhã soa definitivamente. A excitação impulsiona os corpos, que se levantam. Quitéria entra apressada. Herculano desce as escadas e une-se a elas.
-- Vamos! 
O marido abre a porta. A esposa sai e se embebeda da massa prateada e flutuante à sua frente. O céu ainda está acinzentado sobre os limites do arraial à direita, mas, na direção oposta, para além das pedras negras, o vermelho e o amarelo já o tingem. Os sentidos da mulher afloram. O coração palpita fortemente e Páscoa atravessa o portão, aberto por Tião, com Herculano ao seu lado e a filha e a ama atrás.
     A família se locomove pela rua-praia rumo ao nascente. Cheios de compostura, andam, andam, e pensam de muitos modos. Há os que não sabem qual a precisão de estar ali; há os que preferiam não estar; há os que gostariam de estar, mas de outro modo, e há os que apreciam estar até desse jeito mesmo. As pedras negras são alcançadas – Quitéria se benze, tem cismas com o costão – e, sem um minuto sequer de descanso, o grupo volta, com a compostura em pingos e os ombros tombados mais em uns do que em outros. Ninguém fala. No entanto, quanta eloquência com eles próprios! Quitéria está certa de que esse estirão não é para ela. Tanta coisa por fazer! Mas deixa o Capitão ir embora... Exatamente o que Herculano planeja: partir. O banhista não se atreverá a pôr os pés aqui; não posso perder tempo com esse ir-e-vir. Esbaforida de calor, Sofia também se ressente do passeio. Papai não deixa nem pegar conchinhas... Já nos pensamentos de Páscoa vagueiam lembranças que deslizam para sua nascente, para o mar. Por onde andará o banhista?


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Capítulo Treze

A QUARENTENA PODE COMEÇAR


Após a partida do médico, Herculano sela seu cavalo, monta e ruma para os lados do Leme, premido pela necessidade de averiguar no local até que ponto sua família estará resguardada nos próximos quarenta dias. Pela praia, passa ao lado da pedreira negra e entra em território inimigo. Olhares de curiosidade ressabiada chegam à janela das choupanas erguidas mais acima, no areal. Altivo, o Capitão acena com a cabeça. Quer ser visto e fazer pressão sobre o banhista em seu reduto. Chega ao final da praia, sobe até a estação do bonde e, ao lado dos trilhos, faz o caminho de volta.  Um passante meneia a cabeça e ele retribui o cumprimento. Mais alguns metros percorridos, embica o cavalo e entra por uma trilha que ladeia uma chácara até as fraldas do morro. Mapeia essas terras que se estendem à sua esquerda, depois, mira à direita, os fundos de outras, até um terreno distante que se encaixa em curva com o morro, no seu caminho rumo ao mar. Nessa curva desponta um menino, que toca uma flauta enquanto anda e traz uma sacola pendurada no ombro. Herculano trota ao seu encontro.
-- Boas..., cumprimenta o garoto com ar respeitoso e desconfiado.  
-- Mora por aqui?
-- Não. Lá pros lados da vila de Ipanema.
-- O que faz longe de casa?
-- Trabalho. Quer uma graxa? Tá tudo aqui, diz apalpando a sacola.
-- Hoje não.
-- Então, com vossa licença... Vou indo.
-- Espere. Conhece o banhista? – Herculano não sabe o nome.
Com expressão opaca, o menino pensa no que dizer. Acabou de sair da casa do procurado onde ouviu a estória do banho de mar às avessas. Herculano analisa a espera: conhece o sujeito. E o menino despista falando parte do que o indagador quer saber.
-- O procurado tem um cachorro?
-- Tem.
-- Ah, então sei quem é.
-- Onde ele mora?
-- Isso num sei não, mas posso saber, quer?
-- Outra hora. Tem visto ele por aqui?
-- Da última vez... Ih! Faz um punhado de dias. Deve tá na cidade.
O sujeito escafedeu-se, como disse Tião, conclui. -- Como se chama?
-- Crispim de Oliveira. Mas atendo também por Azulão, informa com um sorriso alvo que contrasta com a negritude intensa da pele.
-- Pois pergunte no arraial onde é a casa do capitão Herculano e passe por lá, Crispim. Terá sempre botas para engraxar.
-- Pode deixar, Capitão, vou sim.
A conversa termina, Azulão vai embora e o militar volta pelo mesmo caminho, sem percorrer a trilha até o final. A praia aberta é um convite para a cavalgada. Logo, cabelos e crinas enchem-se de vento – e a dúvida se dissipa em veloz carreira. A quarentena pode começar. Faço o primeiro passeio e Tião vigia os demais. Desse ponto em diante, os pensamentos fluem nas asas dos assuntos que enobrecem a existência do cavalgador.  De repente, o apelido de Crispim lhe vem à mente: Onde já se viu o futuro de uma nação chamar a si mesmo de Azulão?


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