segunda-feira, 11 de maio de 2015

Capítulo Cinquenta e Cinco

DE INQUIETAÇÕES


Mariinha bate a porta da casa e sai desembestada. Acaba de brigar com Ismênia, por causa dos afazeres domésticos. Ampliaram-se desde o final de fevereiro, quando Altino acolheu na casa o irmão e a família, vítimas dos despejos ocorridos na estalagem do Manoel do Porto. Mariinha teve de ceder seu quarto para Bertoleza, Rubião e a escadinha de filhos e tudo dobrou: a roupa para lavar e passar, a água para botar no feijão, as panelas para ariar e os pinicos para esvaziar na latrina – obrigação esta que é da Bertoleza quando aos despejos da sua família, mas que sempre se esquece de fazer porque toda manhã sai apressada para trabalhar. Há ainda as crianças que Mariinha tem de cuidar, para o casal economizar com ama e logo se mudar. Outro inconveniente são os olhares glutões de Rubião e as investidas furtivas que ele dá durante a noite na saleta, onde ela passou a dormir. Isso não é vida. Vou achar o Abel e arrumar um protetor.
O desassossego também está presente no casario de Sinhá Cota. Os porcos e parte das galinhas partiram bem cedo para o sítio de um conhecido das mulheres. Quando a resignação se assentava no coração, Juliano surgiu com notícias preocupantes. Pietro encerrara o contrato das lutas, por causa dos questionamentos feitos por jornais à lisura do habeas corpus expedido por Abreu Vaz. Com o nome indicado para presidir a Justiça Sanitária, o magistrado pediu ao empresário para suspender a exibição da arte marcial e desse modo evitar outras críticas que comprometessem a sua nomeação. Embora tenha sido convidado por Pietro para chefiar a segurança da casa de diversões, Juliano preferiu declinar do convite, com planos de seguir as pegadas do conde Akito, lutador que recentemente passara pela cidade do Rio de Janeiro em excursão nacional.
-- Se o japonês pode, por que um brasileiro não?
-- Será preso, meu filho, alerta Delfina, aflita com o plano.
-- Se este for o meu fim, minha mãe, pelo menos eu irei ter com o meu pai em Fernando de Noronha.
Divina sente um arrepio e teme pelo destino de Juliano.
Dias depois o jovem e o amigo Zé da Baiana partem para a Bahia, e outro juiz, que não Abreu Vaz, é empossado na Justiça Sanitária.

Copyright © 2013 by Maria Tereza O. S. Campos
Copyright de adaptação para Cinema e TV © 2005 by Maria Tereza O. S. Campos

sábado, 9 de maio de 2015

Cinquenta e Quatro

DO MAL DOS DESPEJOS


-- Isso pede quebra-quebra. Só a fuzarca acorda de vez o Soneca, diz Touro de modo veemente.
Depois, Damião da Silva, de trinta e alguns anos, fita os presentes, com a sua convicção de que só tumultuando a solenidade de inicio da reforma da Avenida Central, o presidente do país atinará para o mal dos despejos. É um homenzarrão negro, de branco dos olhos quase sempre avermelhados.
O local é o CCO, Centro das Classes Operárias, e a situação, a reunião dos associados despejados. Vicente de Souza, presidente-fundador da entidade, médico e socialista, na casa dos cinquenta anos, silencia sua rejeição à proposta.
-- Alguém tem outra sugestão?
Rostos se entreolham, ninguém fala e Touro, ainda de pé, pede para que seja posta em votação o quebra-quebra. Vicente resiste.
-- O confronto não nos ajuda. Melhor a lei e a paz, seu Damião.   
-- Defende uma ordem que bagunça a vida da gente?
-- Defendo a legalidade, a exemplo de um abaixo-assinado. Podemos encaminhá-lo para Municipalidade e também para o Congresso Federal.
-- Isso não vai levar a nada. Nosso caminho é do debate e do convencimento.
-- Não tem tido serventia. Político é um bando de cartolas, sem respeito e atenção aos reclamos e às penúrias dos operários.
-- Nem todos!
-- Mas não dão no coro. É coisa de luta, seu Vicente.
-- Não será com depredações e vandalismos que atrairemos para a causa socialista o apoio dos obreiros do nosso país.
-- Fique então com essa bosta de ordem porque eu tó fora.
A saída de Touro estimula a de outros. Apesar de não ter sido despejado, Correia compareceu ao encontro para se solidarizar com os demais companheiros. Preocupa-se com o esvaziamento e com a atitude de Vicente em procurar apoio junto aos políticos em hora que requer apoio imediato aos despejados. A reunião termina sem resultados. 

Copyright © 2013 by Maria Tereza O. S. Campos
Copyright de adaptação para Cinema e TV © 2005 by Maria Tereza O. S. Campos

Capítulo Cinquenta e Três

DO CAPITAL DE FAMÍLIA


Ginástica mental na sala reservada do Clube dos Diários. Theodoro negocia a sua intermediação para viabilizar a Corrente de Lucros no país. Sua contraparte é o advogado Ernesto Nóbrega, de quarenta anos, que tem a missão de persuadi-lo a aceitar a oferta ventilada em outra ocasião pelos principais do negócio. Empreendedores americanos, em sua maioria, já atuam no estado de São Paulo e querem remunerar Theodoro por etapas concluídas do negócio. As iniciais incluem a remoção dos entraves à abertura da empresa na cidade, obstruída desde 1902, e a obtenção da concessão local de energia elétrica. Porém, os empreendedores perceberam expectativas diferentes e saíram de cena após delegar a condução da negociação para Ernesto.
-- Trata-se de um empreendimento de grande envergadura. O Grupo crê que até para o senhor seja melhor se for remunerado por cada concessão obtida.
-- Acho justo.
-- Falamos então tão somente da concessão da produção e distribuição de energia elétrica. Quanto quer para ajudar o Grupo a adquiri-la?
-- O percentual acionário que apresentei na reunião passada.
-- Pensei que tivéssemos alcançado um novo consenso.
-- E alcançamos. Apenas o percentual que é coincidente.
-- Trata-se de uma modalidade de remuneração pouco comum, não acha?
-- Sou adepto das associações e o tempo atual é de modernidade.
-- Entendo. Mas fico a pensar se um envolvimento comercial tão explícito, como o pretendido, não pode comprometer o decoro do seu cargo.  
-- Esteja certo de que tratarei com o senhor das medidas cabíveis para reduzir tal risco.
-- Estou encarregado apenas de conversar sobre esta prestação do serviço.
-- Posso elucidar um ponto?
-- Por favor, o momento é de esclarecimentos.
-- Não presto serviços, Dr. Ernesto, exceto para o Governo. Fora dessa instância, participo de iniciativas de interesse comum. 
-- Porém, numa perspectiva acionária, os riscos são compartilhados.
-- Exato e, como os demais, irei suportar também com recursos próprios o tempo de amadurecimento do negócio. Bem grande, por sinal. Afinal, não se constrói uma usina nem se penetra as Gerais e a Amazônia da noite para o dia.
-- Perdão por me faltar essa informação, mas qual o valor que pretende dispor?
-- Um vultoso capital da família.
-- Preciso de números, Dr. Theodoro.
-- O compatível para remover os entraves políticos à criação da corrente de lucros.
-- Lembro-lhe que tais despesas serão ressarcidas pelo Grupo.
-- Enquanto a minha participação acionária remunerará o principal.
-- Respeitável o valor que dá ao seu trabalho, Dr. Theodoro.
-- Tenho de valorar o herdado, meu estimado, Dr. Ernesto. Trata-se de um capital acumulado desde a fundação da cidade e faz toda a diferença pelo Brasil afora.
-- Realmente o senhor trafega por mares nunca dantes navegáveis.
-- Os principais compreenderão bem essa contabilidade.
-- Sei. Participação acionária é a sua proposta final.
-- Exato, com votos de que o Grupo durma sobre a questão. Nada como uma reflexão descansada e amadurecida por uma noite bem dormida.
Os dois se fitam sem Ernesto transparecer sua antipatia por Theodoro.

Copyright © 2013 by Maria Tereza O. S. Campos
Copyright de adaptação para Cinema e TV © 2005 by Maria Tereza O. S. Campos

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Capítulo Cinquente e Dois

SACO DE GATOS


Herculano e Brito são os últimos a chegar a uma reunião na casa de Agostinho. Como uma lufada de vento no rosto, a visão dos presentes tem efeito em Herculano. Ignora quem seja o jovem civil, mas desconfia dos trajes elegantes e do ar petulante. Conhece bem o capitão Morais e de vista, os deputados estaduais Alfredo Varela e Barbosa Lima. Tem problema com esse e uma opinião inconclusa quanto aos outros.
Apresentado a Fabrício do Vale Queiroz, associa o sobrenome ao mineiro barão de Campos Altos, que teve sua carreira pública interrompida pela queda da monarquia. Deve ser filho dele, pensa, fato que o remete para a ideia da perenidade dos navegantes do turbulento oceano político, onde os náufragos de ontem ressurgem em embarcações capitaneadas pelos responsáveis da temporária submersão. E há Barbosa Lima.
Formado pela Escola da Praia Vermelha, sem vida militar, Lima conspirou contra Deodoro e se tornou homem de confiança de Floriano Peixoto. Anos depois, indiciado como articulador do atentado frustrado à vida de Prudente de Morais, talvez ciente das tramas da guerra de Canudos, salvou-se de acusações, como os demais. Perdeu apoio eleitoral em Pernambuco, seu estado de origem, e Julio de Castilho o salvou, no Rio Grande do Sul, por onde se elegeu como deputado federal em 1900. Atualmente defende direitos trabalhistas. Nesse cenário, Herculano dimensiona as dificuldades de armar um golpe de Estado de acordo com as suas aspirações.
Agostinho inicia a reunião. Relata que tem conversado com cada um sobre como salvar a Pátria dos abusos do poder que a assolam e os congregou ali por achar que soou a hora de prosseguir em conjunto as reflexões.
-- Esse soar seu deu com o recente discurso do capitão Dias na Escola e creio que suas palavras entrarão para a história como a senha pública do levante que purificou a nossa República.
Herculano aprecia a deferência a si. Comentários a respeito são feitos, seguidos da discussão de como sensibilizar outros para a urgência dessa purificação. Fabrício ouve e fuma, soltando círculos de fumaça para o alto. Cigarro e pose incomodam Brito. Varela acha essencial que tenha uma gazeta.
-- Só se faz oposição com um jornal.
Morais retruca num tom humorado.
-- Com certeza, mas como arcar com os custos?
 -- Não se preocupe com isso, responde Fabrício. Temos um representante conversando com amigos daqui e de outros estados sobre a formação de um fundo.
-- A quem o senhor se refere quando diz temos? – pergunta Brito.
-- Ao grupo de cavalheiros que represento. Para além do interesse na propaganda da causa, acreditam que as vendas do jornal irão sinalizar a hora certa para realizarmos o levante em prol da República.
-- Lembro que apenas iniciamos as discussões conjuntas das muitas que deverão ocorrer entre nós e que definirão cada passo a ser dado, enfatiza Agostinho.
-- Oportuno lembrete, Major, declara Morais. -- E o ponto de partida dessas discussões refere-se a quem será o comandante da nossa marcha.
-- Só vejo uma pessoa: Lauro Sodré, diz Lima.
Herculano e Brito preocupam-se em ter no comando do levante um defensor do Congresso, enquanto os colegas militares e Varela endossam a indicação.
-- Nosso representante levará essa indicação aos possíveis apoiadores e também ouvirá as suas preferências, acrescenta Fabrício, apagando o cigarro no cinzeiro.
-- Decidiremos de modo democrático e conjugado com o princípio da viabilidade, desde que precisamos de um nome que a opinião pública legitime, esclarece Varela.
-- Sem o peso da algibeira a influenciar a decisão final, frisa Morais.
-- Não há menor chance de haver tal pressão, assegura Lima.  
Herculano se expressa com relação à sua preocupação.
-- O senador Sodré já está ciente dessa perspectiva?
-- Sim e estuda as possibilidades do apoio que possa vir a ter.
Agostinho toma a palavra.
-- Outro ponto importante de nossas tratativas diz respeito aos princípios que irão nortear o futuro governo. No entanto, proponho deixarmos essa discussão para quando tivermos a confirmação do nome do nosso comandante, uma vez que terá um papel fundamental na condução desse debate. O que acham?
Herculano associa a razão da declaração à conversa que teve dias atrás com o colega. Como os demais, concorda com a proposta feita pelo major e se posiciona para reduzir possíveis inseguranças criadas com as suas defesas de fechar o Congresso.
-- O senador tem os atributos indispensáveis para moralizar a prática republicana nos três poderes.
Brito estranha a declaração, já Agostinho a aprecia.
-- Fico contente com a confiança do grupo e reitero o que tenho dito para alguns dos senhores: não podemos desperdiçar as insatisfações atuais com o governo. Temos de aglutinar todas as forças à disposição em nossa cidade e país para construirmos as bases de um levante vitorioso.
Tão logo Brito chega com Herculano à rua, desabafa o seu estranhamento.
-- Não entendi a sua declaração de moralizar os três poderes.
-- Um pouco de pragmatismo para Agostinho não ficar precavido comigo.
-- Será pragmático também se pactuarem a manutenção do Congresso?
-- No tempo certo e de modo certo, influenciaremos a coisa certa a ser feita.
-- Confiante.
-- Por que não?
-- Fabrício é filho do barão de Campos Altos, não é?
-- Penso que sim.
-- Então o que esperar desse saco de gatos que ainda tem um Lima?
-- A deposição com as alianças possíveis, como disse Agostinho.
-- Será a mesmice de sempre.
-- Está a se precipitar.
-- Com conhecimento de causa. Melhor irmos devagar com o andor, porque esse santo republicano tem tudo para ser de barro.
Pressionado pelos mesmos receios, Herculano escuta sem retrucar.

Copyright © 2013 by Maria Tereza O. S. Campos
Copyright de adaptação para Cinema e TV © 2005 by Maria Tereza O. S. Campos


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Capítulo Cinquenta e Um

ENTRE HIERARQUIAS


Theodoro ouve Silva Castro contar sobre o discurso de Herculano. Entende que a reserva do militar esconde combustão para a rebelião e pensa em como impedir os efeitos em Rodrigues Alves de outro intragável relatório confidencial.
-- Bom ter me contado. Irei ver quem pode aquietar o Capitão.
-- É caso de punição e rigorosa. Isso é indisciplina militar.
-- Exato, mas o rigor tem de ser na medida certa. Caso contrário, a punição vasa, e a imprensa dirá que é atentado à livre expressão. Melhor algo mais sutil.
-- Observarei esse ponto no meu reporte ao Ministro da Justiça.
-- Falar com Seabra é falar com o presidente. Acha conveniente sobrecarregá-lo?
Silva Castro hesita em responder, receoso de que outras fontes informem o ministro sobre o discurso de Herculano e seja interpelado pelo superior.
-- Penso em apenas pô-lo a par e dizer que estou atento.
-- Mas há o risco dele procurar Argolo. Em pouco tempo, a cúpula do Exército estará ciente. Isso não é bom. O mau humor pode se voltar contra você.
-- Ossos do ofício. O que fazer?
-- Dê-me antes a oportunidade de intervir na situação. 
-- De quanto tempo precisa?
-- Menos do que o necessário. Hoje mesmo tomarei providências a respeito.
-- Fico no seu aguardo, então.
Após o almoço, Theodoro surpreende Costallat com o pedido de audiência. Mais essa agora, retruca consigo mesmo o comandante da Escola Militar da Praia Vermelha. Autoriza o ajudante de ordem a fazer entrar o visitante.  
-- Posso voltar em outra hora, se preferir, diz Theodoro.
-- Por favor, tenho sempre tempo para o senhor.
-- Agradeço! Apesar de apreciar visitas programadas, quis vir me desculpar o quanto antes por não ter podido comparecer à solenidade de ontem.
-- Muito gentil de vossa parte.
-- Soube que o Capitão Dias discursou com uma verve vulcânica.
-- Apenas um arroubo patriótico, coisa do calor da hora, responde Costallat, incomodado com a velocidade da difusão da notícia.
-- Folgo em confirmar vossa análise equilibrada. Estamos todos sensibilizados com o lado difícil da reurbanização, quando não com os nervos à flor da pele.
-- Em breve tudo se acalmará. As razões do progresso sempre falam mais alto e, como amigo do Capitão, o senhor poderá aconselhá-lo.
-- Sim e me preocupar enquanto secretário do governo. Havia jornalistas?
-- Não vi nem soube da presença.
-- Antes isso. A plateia gostou do discurso?
-- Aplaudiu solidarizada com os afetado pelas demolições.
-- Agradeceria se me mantivesse informado sobre possíveis desdobramentos.
-- Terá notícias pelo nível hierárquico competente. Irei reportar o ocorrido e a vossa visita ao general Argolo tão logo ele retorne de sua viagem.
-- Claro. Inclusive, antes de vir, ponderei se não devia aguardar o retorno dele para lhe falar diretamente. Mas como conto com a vossa cordialidade, dei-me o direito de ser maleável com os protocolos da hierarquia.
-- Minhas portas estão sempre abertas para o senhor.
-- Agradeço. E quero ouvir vossa opinião. Mais que um professor, Dias é um patriota, apto para integrar a ocupação militar no Acre. Não vê assim?
-- O Capitão está preparado para servir o país onde for preciso.
-- Crê em transtorno para a Escola se houver uma transferência?
-- Temos no nosso quadro mestres à altura para substituí-lo, se for o caso.
-- Ótimo, porque em momento de nervos à flor da pele, o preparo e o patriotismo do Capitão podem ser mais úteis no Norte que dentro da sala de aula, não acha?
-- Essa avaliação é de alçada superior.
-- Estou certo de que sim e confiante de que Argolo irá apreciar minha sugestão ou pensar em outra tão recomendável quanto essa.
-- Esse é o procedimento.
-- Obrigado pela atenção. E, por favor, deixe-me saber se puder contribuir com algo mais para outra questão de interesse comum.
-- Agradeço a oferta.
-- O agradecimento é todo meu.
Não precisa de inimigos, quem tem um amigo como esse, pensa Costallat. Já Theodoro deixa o gabinete confiante nos resultados da sua conversa: para um bom entendedor meia palavra basta.  Dirige-se ao coche com a mente movimentada por outra questão: ouvir de Abdias que Valentin já embarcou para Belém do Pará.

Copyright © 2013 by Maria Tereza O. S. Campos
Copyright de adaptação para Cinema e TV © 2005 by Maria Tereza O. S. Campos


Capítulo Cinquenta

DE DEMOLIÇÕES E DE UM DISCURSO


Amanhece e a Avenida Central exibe a sua materialidade desfalcada. Mais parece um local fantasma, com o abandono devassado dos seus imóveis. Nos últimos dias ocorreu ali a desocupação final. Quem pôde levou telhas, pisos e o que mais conseguiu remover da propriedade. Outros deixaram portas e janelas velhas, que batem ao sabor do vento de quando em vez. Entulhos também ficaram para trás, nos passeios. E avisos do novo endereço, fixados nas fachadas, caem e voam, perdendo-se adiante.
Antes do sol madrugador se levantar, operários despontam na Avenida. Como pelotões em armas, carregam pás, picaretas, cordas e dinamites. Distribuem-se ao longo do espaço. Afugentam indigentes de casarios e preparam a artilharia.
Sinos da igreja repicam os chamados dos fieis para a missa das seis deste domingo de 28 de fevereiro de 1904. Soam como vozes de comando para aqueles na Avenida. Lá alvos são mirados e grande parte do passado de São Sebastião do Rio de Janeiro começa a vir abaixo. O temporal de verão desaba no final do dia.


É manhã de abertura do ano letivo na Escola Militar da Praia Vermelha. Mestres, estudantes, familiares e convidados acomodam-se no auditório da Escola. À coxia, Hilário está com os nervos à flor da pele. As rajadas de vento da véspera destelharam o palco do auditório, a água jorrou e os estragos quase suspendem a solenidade. Só não o foi porque Correia, conhecido daquele telhado, não lhe faltou. Prontamente, atendeu seu pedido de socorro e acaba de repor as telhas no lugar. Pelo madeirame, confere se tudo está em perfeita ordem para proteger a solenidade do instável humor do verão.
A vistoria, que nunca termina, exacerba Hilário preocupado também com o atraso do orador escolhido para encerrar a cerimônia. Olha por entre as abas da cortina do palco e constata o auditório lotado. Vira-se e avista um mensageiro que adentra a coxia. Pressente o pior. Como uma bala disparada, sai ao saber que o orador não virá, pois foi acometido de um repentino mal-estar. A trajetória termina no gabinete do comandante da Escola, diante de quem, Hilário avisa sobre a inesperada ausência e solicita a indicação de um substituto. Após breve reflexão, Costallat indica Herculano.
Na eminência do comandante se dirigir com a sua comitiva para o auditório, Hilário faz o que precisa ser feito, sem tempo para estranhar o nome indicado. Chama Herculano na coxia e lhe relata o contratempo e seus desdobramentos.
A escuta do novo orador se processa em mente rápida. Lembra-se do discurso que Benjamin Constant proferiu no palco adiante e que o projetou nos eventos responsáveis pela deposição da monarquia. Percebe-se diante de oportunidade similar. 
-- Estou às ordens.
-- Por favor, então, senhor doutor Capitão, aguarde num lugar onde eu possa vê-lo, ali, por exemplo, porque um imprevisto a mais nesta manhã eu não respondo mais pela minha habitual tranquilidade.
Indiferente à insubordinação nervosa de Hilário, Herculano senta-se na banqueta indicada e avista o operário, estirado em uma viga do urdimento. Ainda o ouve mandar Correia descer ou ficar quieto onde está porque a cerimônia irá começar em instantes. Depois o som e a movimentação ao redor lhes são alheios. Nem mesmo o início da solenidade quebra a sua concentração no que dizer para instigar ou adensar a oposição ao governo da plateia. Pensa até em se valer de palavras de quem nunca respeitou, mas de apelo aos florianistas ali reunidos. Estabelece-se a tensão entre a força do querer e a da retidão num campo emocional contaminado pela indisposição a se sacrificar mais em nome de uma inflexibilidade que o afasta das lutas de poder.
Chamado ao palco, a imagem da República lhe vem à mente. Diante da plateia espera o final dos aplausos enquanto depreende a satisfação de Brito e a surpresa de Agostinho e de Aurélio em vê-lo como orador. Cumprimenta as principais autoridades e inicia o discurso.
-- Sinto-me honrado em celebrar o início de mais um ano eletivo. Instruir é atender a necessidade vital que os humanos possuem de desenvolver a si mesmos e o meio onde vivem. Quando esse desenvolvimento se dá por meio da inteligência esclarecida, de aptidões capacitadas pela técnica e da cooperação decorrente do culto das afeições altruísticas, mais os resultados provenientes dessa tríade se somam aos da próxima geração, os desta aos da seguinte, e assim por diante. Em paralelo, durante essas sucessões, a educação cumpre a sua missão de força propulsora da civilização.
Nossa Escola tem contribuído para a evolução de nossa sociedade e defendido a Pátria ao longo da sua marcha histórica. Filhos e mestres desta Casa asseguraram no passado nossa integridade territorial, lutaram por uma sociedade brasileira mais humana na vitoriosa causa que decretou o fim da escravidão e ainda proclamaram a República, imbuídos da convicção de ser a forma de governo mais elevada para o aprimoramento continuado dos indivíduos e de suas instituições. De forma similar, filhos e mestres dessa Casa, na atualidade, defendem nossas fronteiras, edificam pontes e estradas de ferro, unem regiões longínquas do país também por meio da instalação de linhas telegráficas, sem se esquecer dos inúmeros que promovem a ordem, a segurança e servem à Pátria nos mais diversos campos de atuação.
Bastam esses poucos exemplos para vivificar a compreensão de que nossa Escola não forma apenas a força armada do país, mas cidadãos. Em particular, a partir do decreto de nº 330 de 12 de abril de 1890, ensinamos que somos um “importante cooperador do progresso como garantia da ordem e da paz públicas, apoio inteligente e bem intencionado das instituições republicanas, jamais instrumento servil e maleável por uma obediência passiva e inconsciente que rebaixa o caráter, aniquila o estímulo e abate o moral”. De tal modo e consoante com o referido decreto, a educação militar no Brasil visa atender aos “melhoramentos da arte da guerra, conciliando as suas exigências com a missão altamente civilizadora, eminentemente moral e humanitária que está destinada aos exércitos no continente sul-americano”. Formar soldados-cidadãos, agentes da ordem e do progresso, sob a égide de uma autêntica República.
Vivemos momentos de mudanças inadiáveis. Urge que o Brasil e a nossa Capital Federal se adequem às exigências da modernidade do recém-nascido século 20. Contudo, quando, em nome dessa urgência, milhares de imóveis são desapropriados por um valor radicalmente inferior ao que valem e inúmeras famílias despejadas do seu lar, sem ampará-las e sem impedir a exploração do infortúnio, isso gera oportunismos, como os atuais praticados pelo setor imobiliário, e injustiças de toda ordem.
Ao mesmo tempo, quando se contrata antigos concessionários de um morro para derrubá-lo e lhes faculta o lucro da construção e da venda de imóveis no terreno resultante, isentos de impostos, tais projetos forjam um capitalismo privilegiativo que, por um lado, vilipendia os recursos e as virtudes da Pátria, por outro, prolifera a miséria e impõe o atraso à grande maioria da população e ao país. 
Quando o Executivo propõe projetos como esses, que desviam para o mal os princípios morais e as práticas materiais da Pátria, quando o Legislativo os aprova e o Judiciário os defende, quando isso acontece os Três Poderes Republicanos cometem um crime contra a própria humanidade. Afinal, esse Ser, formado por todas as famílias-pátrias, não pode civilizar-se quando há exploração do homem pelo homem.
-- Morra o Bota-abaixo, alguém grita na plateia.
Olhares suspeitos se cruzam e Costallat se reacomoda da poltrona, surpreso com o orador que escolhera. Já Herculano enuncia o tema da tensão que confrontou na coxia.
-- Estou certo de que esse maléfico cenário traz à lembrança de muitos a figura do general Floriano Peixoto, quando, nos últimos dias do seu governo, disse à mocidade militar de então: “A vós que sois moços e trazeis vivo e ardente no coração o amor da Pátria e da República, a vós corre o dever de ampará-la e defendê-la dos ataques insidiosos. Diz-se e repete-se que a República está consolidada e não corre perigo. Não vos fieis nisso, nem vos deixeis apanhar de surpresa. O fermento da restauração agita-se numa ação lenta, mas contínua e surda. Alerta, pois!”.
Agora as palmas interrompem a fala, em meio às exclamações de vivas ao general Floriano. Herculano prossegue.
-- Como deixar de identificar a restauração de privilégios monárquicos nos projetos de reurbanização em curso na Capital Federal?
Como ignorar a supremacia de interesses particularistas na condução dos trabalhos da União e de suas Unidades Federativas?
Como permanecer alheio à ignorância, quando não à omissão, do Poder Executivo em coordenar esforços eficientes para reduzir as desigualdades sociais no país?
Perguntas que lanço confiante de que os integrantes das Escolas militares e do Exército jamais se esquivarão em dar respostas patrióticas. Somos filhos do povo, conhecemos na carne as necessidades dos humildes, e fomos instruídos para nos tornar agentes cooperadores da edificação de um Governo efetivamente republicano.  É esse conhecimento e essa cooperação que nos moverá em mais um ano eletivo.  
Bem-vinda Mocidade Militar! Salve Comando, Oficiais, Praças e Auxiliares. Façamos de 1904 outro marco da nossa missão de servir a Pátria, servindo a República, a Família e a Humanidade.
Palmas fortes são dadas, algumas, de pé. A visão inebria Herculano. Alunos o fitam, maravilhados em vê-lo proferir em público reflexões que costuma fazer de modo discreto.  Ainda que preocupado com a fala do amigo, a satisfação reluz em Brito, o entusiasmo, em Agostinho. Dirigem-se para os cumprimentos, deixando um apreensivo Aurélio na poltrona. Outros que caminham para as saudações são soldados afetados pelas desapropriações ou pelos despejos. Sentem-se defendidos pelo colega e admiram sua coragem para criticar o governo num auditório saudoso de bravura similar.
Correia se espicha para ganhar altura superior ao grupo que rodeia o militar no centro do palco. A oportunidade se realiza quando o olhar de Herculano cruza com o dele na coxia: o operário faz um sinal de vitória com a mão fechada do braço erguido. Obtém um deferente menear de cabeça e, satisfeito, deixa o local.
Costallat segue com sua comitiva pelo corredor da Escola. 
-- Terás problema, diz um general ao seu lado.
-- A ocasião é propícia aos arroubos de retórica, responde o comandante, procurando minimizar os receios e arrependido em ter indicado Herculano para falar.
-- Queres passar por um defensor da livre-expressão militar?
-- Até parece que não me conheces!
-- Cuide então para isso não virar um barril de pólvora.

Copyright © 2013 by Maria Tereza O. S. Campos
Copyright de adaptação para Cinema e TV © 2005 by Maria Tereza O. S. Campos

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Capítulo Quarenta e Nove

O TORNEIO VALOIR


Dissimulações à mesa de pôquer. Naipes se revelam nas mãos dos jogadores no estrito do necessário. O exibido em ouros parece auspicioso para Theodoro. Por força das regras da disputa, começou o jogo com o mesmo número de fichas dos demais jogadores e ainda não se valeu do direito de adquirir outras, desde que em valor igual ao inicial. Outra regra da disputa. Só se abandona a mesa com a perda integral do cacife ou com a desistência do montante ainda possuído a favor da banca. Esse tudo ou nada ocorre algumas horas depois do término do sarau no solar e em recinto fechado ao público. É fiscalizado por um funcionário, encarregado também de providenciar novas fichas aos interessados. Bebidas e iguarias são servidas por discretos garçons em librés. 
De idade entre trinta e sessenta anos, os jogadores mantêm relações entre si ou possuem referências um do outro. Poucos são de fora. Os da cidade foram menos radicais que Theodoro na justificativa para se ausentar do lar. Alegaram compromisso inesperado, sem hora para voltar, e não a necessidade de ir para Petrópolis por razões do governo. Atraídos pelo mesmo objetivo, todos disputam nas cartas a volúpia de Ninon de Valoir, a proprietária do espaço, a Casa Rosada.
Criado para celebrar a chegada do século vinte, o certame teve outro propósito. Na época, Ninon tinha quarenta e quatro anos, e a glória de seduzir para edificar-se não a mobilizava mais. Dissipara-se no passado, quando ainda firmava sua reputação de cortesã que ia para cama somente com quem queria, após excitante corte e temporadas financiadas pelo amante de então.
A sensação despertada por essas conquistas era tão intensa, que suplantava eventuais decepções no leito. Acontecia, às vezes, do prazer não se consumar a altura do imaginado durante o excitante flerte. Bem que Ninon se esforçava nessas ocasiões de enfadonhas constações. Tentava sutilmente ensinar requintes sexuais ao parceiro, do tipo ter uma boca deliciosa, mãos desbravadoras e um falo prodigioso. Mas o resultado era pífio, lastimável. Mesmo assim, com ou sem apoteoses sexuais, nesses tempos idos, o que lhe importava era o seu poder para atrair homens influentes ou singulares e cultivar a amizade, após constatar a decepção sexual ou o arrefecimento do desejo.
Porém, há muito se edificara aos próprios olhos e a glória de seduzir transformara-se na satisfação de bem zelar pela sua reputação e segurança financeira. Tornou-se preguiçosa nos assuntos da volúpia sexual e passou a cozinhar em fogo alto ou brando a esperança de antigos amantes em retornar ao seu leito ou a expectativas de candidatos em debutar na sua alcova. Mas percebeu insatisfações e se pôs a pensar em como resolver a questão sem prejudicar a receita da Casa Rosada.
De repente a lembrança das histórias dos torneios medievais lhe veio. Realizados nos castelos, esses torneios atraiam cavalheiros dispostos a lutar para obter o título de vassalo de uma dama. Certa de que os contemporâneos não diferenciavam sobremaneira dos congêneres daqueles séculos, teve a ideia de criar O Torneio Valoir, no qual o prêmio era o acesso a sua cama. Já as armas seriam o pôquer. Considerou que o certame suscitaria em seus pretendentes emoção muito maior do que aquela que sentiam ante a perspectiva de ser o escolhido com base em critérios subjetivos. Além disso, a competição às claras permitia ganhos para todos. Conferia prestígio adicional ao vencedor, que teria reconhecida sua maestria no pôquer, quiçá com um cacife menor, ao passo que os perdedores seriam brindados com a visibilidade do seu arrojo e do tamanho do seu cacife. Com tantos estímulos, nenhum dos candidatos se importaria em contribuir com o dinheiro do pôquer para as receitas da Casa Rosada. Afinal, como homens de negócio conheciam bem o valor das coisas em todas as searas.
Apostou na sua ideia, lançou o Torneio e foi bem-sucedida. Tanto que houve o pleito de mais de um por ano. Ninon ignorou os pedidos, e o certame continuou anual, divulgado com a devida antecedência, por meio de convites expedidos a um seleto grupo de cavalheiros. A novidade se espalhou e estimulou a aprendizagem do pôquer, além de entendimentos. Entendeu-se que a lista revelava quem era quem nos assuntos varonis e econômicos do país. Não teve quem não quisesse fazer parte desse exclusivo grupo. Resultado: o fluxo de cavalheiros no bordel aumentou. A renda da Casa Rosada cresceu e se elevou o cacife para sentar-se à mesa da concorrida disputa.
Como nas edições anteriores, o Valoir 1904 expediu apenas onze convites. O aceite foi total e dois cavalheiros de fora da cidade trouxeram filhos e sobrinhos para terem a iniciação sexual na Casa Rosada e o acesso aos refinamentos da civilização com a mestra francesa. A instrução ocorrerá ao longo da tarde do dia seguinte, quando os jovens aprenderão como se comportar nas diversos setores da vida. No momento, estão no salão aberto ao público. Ali, mascaradas fogosas os entretêm, outras fazem a festa de varões e a alegria geral se expande a cargo das formosas que encenam Os Deleites da Colombina. Afinal é Carnaval na Capital Federal.  
Enquanto tantas fruições reinam no salão e a tensão à mesa do pôquer, Ninon aguarda o vencedor, no seu aposento, tomada pelo frisson. Não pensa em preferências, nem em glórias diferentes daquelas que devem palpitar no coração de uma dama que se dá a prêmio para celebrar o triunfo de um valoroso certame. A noite é de entrega. De ode ao prazer e à vitória.
Uma hora depois, a palpitação de Ninon acelera mais, quando o funcionário lhe entrega a caixa de marfim com o dinheiro dos perdedores. Aprecia o montante, sem perguntar quem venceu o jogo. Logo mais, não só saboreia a surpresa de ver o vencedor diante dela, como se pergunta que raio de fortuito conspirou contra jogadores mais aptos à vitória e a favor desse querido protetor de todas as horas. Ávida por ouvir os detalhes da sua vitória, dá o braço ao juiz Abreu Vaz e os dois caminham para a sala ao lado, onde uma fausta ceia os espera.
Theodoro, por sua vez, está possesso no aposento que mantém na Casa Rosada. Qualifica Abreu Vaz como um pangaré que jogou o tempo todo numa posição defensiva e com uma ignota sorte levou a melhor. Não é justo. Tudo desfeito de um momento para outro. Quanto mais pensa no instante em que o jogo virou, nas sucessivas esperanças que teve de reaver a perda nas próximas cartas, quanto mais pensa que esteve prestes a ganhar e quanto esta vitória lhe era cara, mais a frustração oprime e outros desconfortos surgem. Exerce controle e analisa a conjuntura. O magistrado partirá e nenhum plano será mudado. Permanecerá na Casa até terça-feira, para dar tempo da caça cair na armadilha. Num impulso, deixa o aposento em direção ao salão principal, onde se reúne aos demais perdedores, com um bom humor que nem o mais perspicaz observador é capaz de reconhecer os sinais da derrota que amarga. 

Copyright © 2013 by Maria Tereza O. S. Campos
Copyright de adaptação para Cinema e TV © 2005 by Maria Tereza O. S. Campos