segunda-feira, 18 de maio de 2015

Capítulo Sessenta e Dois

DE SENSAÇÃO INUSITADA


Na Escola Militar, Correia informa Herculano sobre suas articulações.
-- Reuni um povo bom pra começar a instrução. Não deu para ser no CCO porque o Touro diz que lá não entra mais. É arisco quando confrontado, mas depois amansa. Por isso nem falei com o Dr. Vicente, pra não ofender. Mais pra frente, a gente conversa com ele e une as forças.
Herculano gosta do relatado. Após o encontro com o marceneiro, percebeu que errara ao propor o CCO como local de reunião. O correto teria sido propor um espaço reservado para evitar que o seu envolvimento com o grupo viesse a público.
-- Um bom encaminhamento. Onde nos reuniremos?
-- No quintal da loja. Tem uma parte coberta e não dá na vista. Seu Fortunato autorizou o uso e também quer participar.
-- Será bem-vindo. Quando começamos?
-- Por mim podia ser já. Mas o povo achou melhor guardar os dias santos e começar no outro domingo, por volta das quatro da tarde. Está bom para o senhor?
-- Muito bom. Estarei lá.
Com essa programação e o novo local do encontro, Herculano experimenta uma sensação inusitada, quase mística. Sente como se a própria força da vida concorresse a seu favor, numa evidência de que está certo ao pensar que o momento é propício à realização dos seus anseios mais íntimos. Deixa o gabinete e atende a um chamado de Agostinho, que lhe informa sobre o cancelamento da reunião semanal do levante.
-- Não há porque nos reunirmos sem o retorno dos apoiadores.
-- Sabe o motivo dessa ausência?
-- Um atraso natural pelo que Fabrício comentou. Agora as boas novas. Sodré comparecerá à estreia da ópera no Teatro Lyrico, no sábado. Bom se todo o grupo fosse.
-- Comprarei o ingresso ainda hoje e falarei com o Brito.
-- Isso! Leve a esposa e peça para ele também levar.
Será preciso? O pensamento de Herculano é atravessado pela explicação do colega.
-- A família sempre nos compõe em público e dará maior prestígio a Sodré.
Faz sentido. Preciso me apresentar melhor. Páscoa está bem disposta, corada. Fará bonito. Será o meu presente de aniversário para ela.

Copyright © 2013 by Maria Tereza O. S. Campos
Copyright de adaptação para Cinema e TV © 2005 by Maria Tereza O. S. Campos

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Capítulo Sessenta e Um

FUSTIGAMENTOS


Bem cedo na segunda-feira, Theodoro toma ciência por BV do retorno da família do Capitão para Botafogo. Decide suspender as vigias, uma vez que as reuniões na casa de Agostinho não passaram despercebidas para o pessoal de Silva Castro e todos já estão sendo vigiados.
-- Volte com Coelho para a repartição, chamo quando precisar.
-- Sim, senhor.
Theodoro está inquieto. Passou o fim de semana em Petrópolis, onde esteve com Rio Branco. Ficou sabendo da conversa prometida para viabilizar a sua intenção de tirar Herculano de cena, integrando-o no corpo de oficiais intermediários na Amazônia. O ministro das Relações Exteriores lhe contou que o da Guerra concordou com a indicação, porém fez duas ponderações: do efetivo no local estar preparado para o alto desempenho das funções e, no caso de ser preciso reforçar essa tropa, outros oficiais devem ser deslocados antes de mobilizar um professor-militar. Para não criar cizânias, Rio Branco achou melhor deixar o dito pelo não dito.
A impossibilidade de isolar Herculano fustiga Theodoro e amplia a tensão com a falta de retorno de Ernesto sobre a participação acionária pretendida. Outro fator de inquietude é o silêncio de Catarina acerca da eficácia do indisciplinado banho de mar. E há Ninon. Tomou a decisão de pôr um ponto final na conquista ao se perceber obstinado em possuí-la. Nada de dividir energia. No entanto, frustra-o não ostentar o título de ter sido um dos poucos brasileiros eleitos a conhecer as delícias do sexo da cortesã. Tomado por essas questões, prepara-se para buscar a esposa na fazenda.

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Capítulo Sessenta

O SEGREDO DE NINON DE VALOIR


Coelho aproxima-se de uma botica. À porta, avista BV a se insinuar para uma catita. Na primeira oportunidade, chama-o fazendo um sinal com a cabeça e o espera na outra calçada. Licenças pedidas à dama, em passos tranquilos, BV aproxima-se.
-- O que houve?
-- Perdi o homem.
-- Perdeu como?
-- De repente. Ele partiu no coche com a família e a ama numa carroça alugada. Pensei: tão voltando pra casa. Larguei a canoa pra lá, corri, tomei o bonde e fui pra Botafogo. Batata: o casarão estava de janela aberta e com movimento. Montei a guarda. Só que, mais tarde, o sujeito me surge vindo de não sei onde. Não sei se enquanto eu ia, ele apeou no meio do caminho ou se saiu antes d’eu chegar. Achei melhor te avisar.
-- Alguma novidade mais?
-- Nenhuma. O banhista não voltou.
-- Olho atento no casarão daqui pra frente.
-- Sem dar na vista será difícil. Nem dá pra eu fingir que sou pescador. A casa fica no final da rua, longe da praia. Só tem o muro do hospício e nada mais. 
-- Dê o seu jeito, enquanto resolvo isso com o patrão.
Separam-se. BV monta o Tufão e parte em direção ao solar.
-- Cadê Abdias?
-- Deu uma saidinha, responde o jardineiro Ladário.
-- E o patrão?
-- Petrópolis.
Num momento em que a patroa se encontra na fazenda dos pais, BV acha possível que o patrão esteja na Casa Rosada. Por que não? Confere a sua intuição e deixa o assunto em suspenso quando não o encontra onde imaginava estar. 
Ninon toma conhecimento dessa procura e se intriga. Desde a terça-feira gorda, não viu mais Theodoro. Entende que o resultado do Torneio o tenha chateado. Contudo o sumiço se prolonga em demasia. Enrabichou com alguém? Só pode ser.
Aproxima-se da penteadeira de espelho de cristal. Examina a gulosa decadência das pálpebras, das faces e do pescoço. É interrompida pelo aviso de que Abreu Vaz pede para lhe falar com urgência. Recebe o amigo na sala ao lado.
O juiz se mostra chateado. Durante o almoço, no Clube dos Diários, um amigo lhe confidenciou rumores de que Theodoro estava por detrás dos artigos jornalísticos contra o habeas corpus concedido a Pietro. Os dois suspeitaram que o motivo só pudesse ser uma desforra à derrota sofrida no Torneio. Abatido, decidiu espairecer no Jóquei. Entre uma prosa e outra, um velho conhecido lhe comentou a mesma história.
-- Onde está o espírito de competição desse jovem? – Exclama Abreu Vaz para Ninon. -- Não posso dar o troco sem criar um problemão. Em nome da nossa amizade, peço ajuda para apaziguar essa animosidade contra mim.
-- Conte comigo. Por acaso o viu hoje?
-- Não e ainda bem. É insuportável lidar com um inimigo como se amigo fosse.
-- Talvez esses comentários tenham uma segunda intenção.
-- Por que diz isso?
-- Às vezes, para abater um alvo é preciso abater outro como isca.
-- Está a defendê-lo.
-- Não. Apenas faço ponderações. Por mais desejosa que seja a vitória no Torneio, a derrota me parece um motivo menor para o nosso amigo gastar poder.
-- Vocês mulheres desconhecem o efeito irracional que causam nos homens.
-- Deveras, meu amado, mas perdas materiais são mais doloridas que as carnais.
-- Nem sempre, Ninon, nem sempre.
-- Considere que os arranjos do progresso não têm sido bons para todos.
-- Ninon, não tenho nada a ver com as disputas encarniçadas desses arranjos. Meu interesse era na Justiça Sanitária, não em orçamentos volumosos.
-- Sei disso. Mas talvez um adversário do nosso amigo esteja as turras com ele. Mirou você para que crie o problemão e desse modo abatê-lo com o que você sabe dele.
-- Ouviu algo a respeito?
-- Elucubro apenas, meu querido. Nossa capital se tornou uma praça tentadora.
-- Como pude deixar a indignação vedar-me a análise dos fatos!
-- Compreensível, estava sob o efeito das insinuações.
-- Exato! Só pensei quão torpe era alguém querer roubar o brilho da minha vitória.
-- Que me proporcionou uma noite adorável.
-- Diz isso por ser bondosa. Conhecemos bem a verdade, diz com um ar desolado.
-- Sim, conhecemos. Só o seu cérebro acende a admiração do meu.
-- É o mínimo que posso fazer. O relógio da vida foi implacável comigo.
-- Por que não darmos a chance de ajustar os ponteiros?
-- Não, não. Prefiro a aflição da dúvida ao terror da confirmação.
-- Não se apegue a um incidente. Pode ter sido uma ocorrência circunstancial.
-- A primeira sim, a segunda talvez, já a terceira não e muito menos a quarta.
-- Desconhecia essas outras tentativas.
-- Perdoe-me, mas precisava conferir.
-- Com razão. Mas pode ter escolhido a pessoa errada para tentar.
-- Pensando por esse lado, admito: possuíam volúpias comuns. Não despertaram nem um leve fremir. Estava bem atento.
-- Nada pode funcionar com atenções demasiadas sobre si.
-- De novo me poupa com a sua generosidade, mas vamos mudar de assunto, é embaraçante e dolorido falar disso.
-- Aguente um pouco mais. Para o seu bem insisto que tente outra vez.
-- Oh, minha deusa! Um homem tem sinais o tempo todo, suscetível que é aos estímulos. Mas nada acontece. Nem uma pressão mínima, somente a placidez, prenha de vontade, se puder compreender a disparidade dessas sensações.
-- Recomendo que tente com uma donzela catita e desejosa de ser acolhida.
-- Não sei...
-- Programei-a para o Leilão de Aleluia, mas posso retirá-la, se quiser.
-- Melhor não. Reduzirá as ofertas... Causará insatisfação nos interessados.
-- Ainda não expedi os convites.
-- Não quero que perca renda por causa de mim, nem eu pagar para sofrer. Só com você esqueço minha pena e só por você movo mundos e fundos.
-- Peço-lhe que mova o seu mundo com a donzela – e, se a hora se fizer, mova depois o fundo para a Casa Rosada, caso contrário, não.
-- Ninon! Um homem tem de arcar com o ônus de ser o que é.
-- E negar um mimo de quem o quer tão bem?
-- Jamais. Nego o enfrentamento de novas constatações.
-- Pense. Posso aguardar a resposta até horas antes do Leilão.
-- Quando acontecerá?
-- No próprio sábado de aleluia.
-- Mas de noite haverá a estreia da ópera no Theatro Lyrico...
-- E, em seguida, o repicar jubiloso do carrilhão.
-- Você é mesmo uma diabólica preciosa!
Abreu Vaz parte, e do conversado o que mais preocupa Ninon é o amigo não ter encontrado com Theodoro em pleno sábado. Onde ele está? Sabe que tem lhe negado a entrega apaixonada por um tempo além do recomendado. Pode ter se exaurido da espera e alçado voo para outra paragem. Isso não é bom. Ainda mais porque Abel Adonis a alertou sobre o sucesso de mère Louise, uma legítima cortesã parisiense, recém-instalada na Capital Federal. Por um acaso ou numa ação deliberada, a concorrente pode descobrir seu segredo guardado a sete chaves: Não é francesa e, sim, brasileira. Chama-se Antonina Flores. Fugiu aos treze anos pelo porto de Santos com um francês para Paris, onde conheceu Clement, um solteirão, amante da boa vida e descendente da antiga nobreza que vivia dos contatos da sua família para intermediar interesses e obter rendas. Abandonou o outro e se uniu ao nobre, com quem se refinou e iniciou sua carreira de cortesã. Apesar de tido vários amantes, nunca se separou de fato de Clement. Juntos aportaram no Pharoux, em dezembro de 1888, de onde viajaram para a Amazônia, integrados numa excursão de naturalistas europeus, financiada por um conde alemão. Durante a expedição, Clement morreu de malária e Ninon, como já se chamava nessa época, embarcou de volta para Paris. O testamento do falecido a beneficiou com a propriedade em que morava e com um montante pecuniário. Vendeu a casa e com seus pertences retornou ao Brasil, em 1890. 
Naqueles dias o país acordava para o consumo conspícuo desencadeado pela especulação financeira do período. E há muito os homens brasileiros amavam as francesas, consideradas deusas do amor e do olimpo civilizado, com quem nenhuma esposa podia se igualar, mesmo a mais ardorosa. Normal que Ninon se assomasse nesse ambiente. Trouxe de Paris algumas moças e abriu a Casa Rosada. Desde então reina na cidade e teme ser desmarcada pela mère Louise numa disputa territorial. A possibilidade também pode se efetivar pelas mãos de Theodoro. Movido por ressentimentos carnais, como os aventados por Abreu Vaz, pode querer investigá-la. Os riscos lhe mostram a conveniência de alimentar melhor o amor próprio dele. Porém uma questão se enuncia: se me entregar sem mais nem menos, não valorizará a conquista. Precisa do triunfo. Como lhe dar a sensação de vitória? 
A resposta se divulga por intermédio de Soledad às moças da Casa Rosada.
-- A senhora vai a viajar para a Europa.
Todas querem saber o motivo, quando será e por quanto tempo.
-- No lo sé, no lo sé, no lo sé, repete Soledad.
-- Irá buscar garotas francesas?
-- Apaixonou-se e fugirá com a nova paixão?
-- Recebeu uma carta do amado que a deflorou e voltará para os seus braços?
-- Ah, o amor!
Fantasias circulam e são compartilhadas com os clientes.
                               
Copyright © 2013 by Maria Tereza O. S. Campos
Copyright de adaptação para Cinema e TV © 2005 by Maria Tereza O. S. Campos


Capítulo Cinquenta e Nove

DA TROPA POPULAR


É sábado. Herculano retorna com a família do arraial de Copacabana. Mal adentra a casa, sai. Surge no escritório de Dr. Anacleto em visita não marcada. Na antessala do advogado, espera para ser atendido. O som das imprecações contra a reurbanização vaza do escritório. A porta se abre e o portal emoldura o corpanzil de Manoel do Porto.
-- Somos homens da lei e da calma, mas se o governo não pagar o que deve aí a coisa vai ficar feia.
Com o comerciante estão os vizinhos afetados pela reforma do Largo da Carioca. O grupo enche a antessala, alguns meneiam a cabeça de modo formal para Herculano – e logo o ambiente se esvazia novamente. O militar e o advogado se cumprimentam.
-- Só passei para saber se o senhor tem alguma notícia do processo.
-- Nenhuma. A coisa está lenta. A prioridade é julgar os infratores do Código Sanitário e expedir as ordens de demolição por insalubridade. Mas te aviso tão logo venha saber de alguma coisa.
De volta à rua, Herculano depara-se com Correia. O homem lhe sorri.
-- Tá lembrado de mim, Capitão? Do discurso do senhor? Era eu na coxia.
-- Claro! Como está?
-- Bem e ainda pensando em tudo que ouvi lá. Toma um café comigo?
-- Uma honra.
-- Correia Matheus, a vosso dispor, diz estendendo a mão.
O militar responde ao cumprimento.
-- Herculano Dias, também a vosso dispor.
Durante o café, tomado à mesa de um bar, sem clientes por perto, o marceneiro põe o militar a par das suas preocupações com os desalojados e com as dificuldades de Vicente para liderar as defesa dos oprimidos.
-- Foi uma benção este nosso encontro. Há dias penso em ir ter com o senhor para saber se pode ajudar a alumiar nossas ideias lá, no CCO.
Herculano vislumbra a oportunidade de formar uma tropa popular com operários que lhe dê poder para garantir o levante aspirado.
-- Talvez eu o desaponte com o tipo de ajuda que posso oferecer de imediato.
-- Não diga isso. Fez um apelo tão bonito naquela manhã.
-- Para a reflexão. Só com o entendimento dos nossos problemas podemos criar soluções para demolir as fundações do mal que nos aflige.
Correia teme estar diante de alguém parecido com o patrão.
-- Quem não entende que o governo deixou os despejados ao deus-dará?
-- Resta então entender porque o fez e porque obteve autorização parlamentar.
-- Ora são uns desalmados e o povo é manso.  Não todos. Tem gente valente, pronto pra exigir amparo, e outros tantos pra engrossar o coro.
-- Porém antes de ir pra rua, cada cantor precisa saber que governo quer e como torná-lo realidade; em seguida, é preciso afinar as vozes. Se não, o coro irá cantar primeiro na delegacia central e depois na Ilha das Cobras. Por isso, falei de reflexões.
-- O senhor está me lembrando do meu patrão.
-- Folgo em saber.
-- É um anarquista.
Herculano vê problemas nessa qualificação e nos seus efeitos em Correia, um homem que pode se tornar um bom sargento da tropa popular vislumbrada. Por outro lado, enxerga no patrão dele potencial para arregimentar comerciantes que apoiem financeiramente os seus planos. Deixa de lado seus pudores e ajusta sua visão de futuro com o intuito de ampliar a empatia e a confiança despertadas.
-- Imagina uma reta com uma inclinação suave para cima e contínua. É assim que vejo a evolução da humanidade: em direção ao aperfeiçoamento superior e ilimitado dos indivíduos e numa marcha impulsionada pela instrução, fraternidade e responsabilidade. De tal modo, o anarquismo pode vir a ser a nova forma de organização dos indivíduos quando a era positivista ou científica, alcançar a plena maturidade.
-- Meu patrão ficará surpreso quando eu contar que o senhor pensa assim.
-- Terei prazer em conhecê-lo.
-- Passe na loja. Apresento o senhor pra ele.
-- Na primeira oportunidade, passarei.
-- Mas no hoje, como a gente arranca o mal pela raiz?
-- Que tal reunir uns amigos para pensarmos juntos? Quem sabe no CCO?
-- Vou ver o que arrumo e aviso pro senhor lá na Escola, pode ser?
-- Estarei à espera.
Herculano sai satisfeito do encontro. Das perspectivas abertas por Correia às ameaças feitas ao governo pelos clientes de Anacleto, tudo reforça suas certezas de que o presente gesta as condições para um levante. Astúcia, diz para si, Ninguém pode desconfiar do que penso e almejo. Regressa para o casarão. Tranca-se na biblioteca e planeja conteúdos para refletir com a sua possível tropa de operários.


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Capítulo Cinquenta e Oito

DE CASCAS DE BANANAS E DE SONHOS


Num café na esquina da Rua Ouvidor com a Uruguaiana, Emiliano põe o Comendador a par do encontro que teve há pouco com Theodoro, no Palácio do Catete. O relato sem boas notícias enerva Ferdinando.
-- Ainda mostro pra esse sujeito com quantos paus se faz uma canoa.
-- Não destempere! Ele disse que agora terá mais tempo para ver o que pode fazer pela desocupação do casario.
-- Esse agora prolonga desde dezembro.
-- Por causa das reformas. Não podemos negar que ele anda bem atarefado.
-- Pois se não mexer logo, mexo eu. Tenho casca de banana para jogar. Ele irá escorregar feio.
-- Escorregamos nós também. Conhece bem o tipo e o pai.
O barulho de uma britadeira na Uruguaiana invade o espaço e enerva ainda mais Ferdinando. Propõe ao amigo pagar a conta e irem para outro local.
Durante o trajeto, a reurbanização se apresenta no som e no trabalho das picaretas, nos escombros das demolições e no tráfego congestionado pelas obras que alargam as ruas. Os amigos passam diante da venda Ambos os Mundos, com a sua carcaça à vista e defrontada para a intacta loja Os Materialistas. No quintal do estabelecimento, Fortunato e Correia conversam.
Fortunato nasceu em León, na Espanha. O pai, militante anarquista, morreu num confronto entre a polícia e trabalhadores. No mesmo ano, em 1873, o então garoto desembargou na cidade, com o tio, fugitivo da repressão política, e ainda acompanhado das irmãs e da mãe, que aqui se casou com um lisboeta. Após a morte do padrasto, Fortunato assumiu a loja e a rebatizou com o nome atual. Prosperou no comércio e, como o pai, tornou-se um anarquista.
Correia, até onde sabe, tem sangue de índio, de alemão, de negro e de português. Não professa doutrina política e se condói com a pobreza. Preocupado com a pouca ação de Vicente na defesa dos desabrigados, comenta com o patrão sobre o discurso de Herculano, que ainda ecoa na sua cabeça.
-- Penso em ir conversar com ele. Quem sabe pode ajudar o Vicente nas coisas do CCO.
Fortunato faz cara feia.
-- Aposto que é positivista. Não se fie em falatório desse povo porque pregam a ordem e a submissão. Ainda mais um militar que tem a lei da garrucha.
-- Tive boa impressão dele. Chamou a família de cada um de pequena pátria e defende a instrução, como o senhor.
-- Vá lá, mas a Pátria é o mundo todo e toda a gente.
-- Entendi que pro Capitão isso é a humanidade, o grande Ser.
-- E a fortificação do espírito da rebeldia, ele prega? Duvido!
-- Combateu a obediência servil. Disse que rebaixa o caráter e abate o moral
-- É. Mas pergunta pra ele, se acredita na igualdade. Descobrirá que não.
-- Pra quem defende a República, perante a lei todos os homens são iguais.
-- Lei! O grande problema, Correia. A do céu quer acarneirar todo mundo. A da terra, pôr cabresto na gente a ferro e fogo. Não há como ser livre e igual desse jeito. 
-- É muita filosofia, seu Fortunato. Tem de haver ordem.
-- Sim, mas construída com o entendimento, Correia.
-- Isso leva tempo e os desabrigados precisam de ajuda pra ontem.
-- No imediato, só a fraternidade pode lhes prover.
-- Não tem pra tanta gente. Esse é o problema.
-- Infelizmente, a anarquia não acontece de pronto, mas devagar e sempre, se houver as ferramentas certas. Teve um grego que disse: com uma alavanca, eu levanto o mundo. Pois eu digo: dê ensino, explique para qualquer inteligência como a opressão acontece, e ajude o povo a negar a autoridade dos opressores que, com essas três alavancas e por conta própria, os oprimidos do mundo todo descobrirão como sair da miséria e tocar suas vidas de um jeito melhor que o da cartilha da religião e do governo. 
Correia acha que o patrão é um sonhador, como ele próprio. Sonha em ver os sofredores todos se unindo de vez para exigir condições melhores de vida. Mas como isso pode acontecer? É a questão que o faz pensar no Capitão.

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segunda-feira, 11 de maio de 2015

capítulo Cinquenta e Sete

HERMOSA PERO TONTITA.

Diante de Ninon de Valoir e em meio do luxo do ambiente, Mariinha é uma estátua viva, palpitante de coragem e receios com relação ao passo que está prestes a dar. Nem se mexe quando Abel Adonis sai do aposento. Soledad, a responsável pela governança feminina da Casa Rosada, fecha a porta e se posta atrás da poltrona ocupada por Ninon, que se mostra amável com a moça.
-- Sente-se Mariinha.
-- Se não se importa, senhora, pode me chamar de Margot?
-- Claro que posso.
-- Muito agradecida. Vou sentar, viu? Dá licença.
Soledad faz uma cara de entojo.
-- Decidida a ser uma das minhas pupilas?
-- Ah, sim, madame. Quero muito viver bem e ter um protetor.
-- Madre mia! Que desatino!
-- Soledad!
-- Pero no es ni una cortesana e já está pensando em tener um protetor?!
-- A senhora fala tão gozado, Dona Soledadi.
-- Psiu! Aqui só se hablas cuando a senõra pergunta.
-- O que conhece da arte do amor?
Encabulada, Mariinha sorri.
-- Ah! Umas coisas mais do que outras e até a beiradinha do finalmente. Sou moça donzela ainda e quero ser deflorada pelo meu protetor.
-- No lo sé, no lo sé, isso no vá a funcionar, exclama Soledad descrente de que Mariinha dê certo no bordel, se o que mais quer é ter alguém que a proteja.
-- Se quer trocar sua virgindade por uma proteção segura, melhor se casar.
-- Como, dona Ninon? Se só aparece pretendente pobre ou rufião que quer ter a minha preciosidade sem me dar o melhor. Por isso cá estou. Quero achar meu protetor.
-- Nina tonta, diz Soledad fazendo com a mão um gesto de desdém.
-- Ora, por que, dona Soledadi,
-- Argh! Sueños no son habas contadas.
-- Como é que é?
-- Sonhos não são favas contadas.
-- Não posso ter aqui o mundo aos meus pés e até conhecer o amor?
-- Se esmerar e a sorte ajudar... Quantos anos tem?
-- Já fiz dezoito, mas digo que sou de menor. Num pareço?
-- Parece. Ande um pouco pela sala para eu ver você melhor.
-- Por quê? A senhora sofre das vistas?
-- Ih! Hermosa pero..., exclama Soledad virando o rosto de lado.
-- É só inexperiente.
-- Mas aprendo tudo rapidinho.
-- Então vá até ali e volte como se estivesse sendo olhada pelo seu protetor. Quero imaginar como ele apreciará você.
-- Ah! Entendi. Espera só um pouquinho.
Mariinha suspira e o ar faceiro começa a emanar do corpo ainda sentado e depois no molejo do movimento. Ninon analisa o andar – um tico de requebro de menos deixará no ponto. Durante a volta, pede que tire a roupa.
-- Mas, senhora?
Soledad se aproxima.
-- Não queres ser una cortesana? Hay que tirar la roupa.
Ruborizada, Mariinha se despe e cobre o sexo com as mãos. Ninon anda ao redor segurando a haste longa de um pincenê: magra em boas carnes. Seios firmes, fartos; ancas largas, traseiro saliente, pernas e pés bem feitos, só mal tratados. Mexe nos cabelos: podem ficar sedosos. Acaricia o rosto da moça, depois, desliza os dedos por um braço – óleos deixarão a pele macia. -- Sorria, com todo o encanto que puder. Sorriso maroto – produzirá bom efeito. Abra a boca – bela dentição. O que te pareces, Soledad?
-- Buena conformación.
-- Erga os cabelos com as duas mãos, Margot.
Constrangida, Mariinha obedece, e Ninon fita a pelugem da vulva – densa! Será bem apreciada, não?
-- Por que te importa com isso, si a brasilenos les gusta mucho o outro lado?
-- Pode se vestir, Margot.
Mariinha levanta as peças do chão com os olhos na cortesã.
-- A senhora me aceita?
-- Terá casa, comida, cuidados e instrução de como se portar e na arte do amor. Se estiver pronta, estreará na festa de Aleluia...
-- Com o meu...
-- Cállate e escucha!
-- Se aprovada, fica na Casa e falamos sobre o pagamento.
-- Sim, senhora.
-- Soledad, leve Margot para o exame do Dr. Amâncio e a entregue aos cuidados de Desirée. As aulas seguintes serão com Aimée. Veja também roupas. Providenciarei com Reverbel, um perfume para a nossa trigueira.
-- Es lo que voy a hacer. Ande, chica. Termine logo com isso, porque yo no tenho todo el tiempo del mundo.
-- Ah! Dona Soledade, se a senhora não falar direito, num vou te entender.
Enquanto a jovem se prepara para se lançar na prostituição, Ismênia e Altino padecem as dores do seu desparecimento, em carta de despedida lida e relida: fui embora; não se agastem, venho visitar quando tiver com a vida ganha. O pesar é fingido em Bertoleza, que mira a feição carrancuda de Rubião com seu olhar desconfiado.

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Capítulo Cinquenta e Seis

DE ARTICULAÇÕES


Autoridades e convidados se reúnem na Avenida Central. Folhagens e bandeiras hasteadas decoram o espaço, onde um equipamento moderno está no centro. Sobre os montes de escombros do entorno, operários e curiosos espiam o evento, que conta com a cobertura da imprensa.
Rodrigues Alves discursa, descerra a placa fixada numa pedra de granito, que registra neste oito de março de 1904 o início da reforma da Avenida Central. Em seguida, liga o motor de um possante perfurador. Barulho e muita poeira fluem em meio dos aplausos. Depois é a vez de Muller trabalhar com a britadeira. Tudo se repete: poeira, barulho e palmas para a modernidade a caminho da cidade.
Theodoro acompanha o evento, atento aos populares. Receia tumultos e não vê a hora do presidente retornar para o Palácio, onde um almoço coroará as comemorações. Tão logo o chefe da nação parte, consegue ir sozinho com Rio Branco no coche do ministro que acaba de chegar de uma viagem diplomática. Na primeira oportunidade, parabeniza-o pela iniciativa de firmar uma aliança militar com o Equador, no caso de haver um conflito armado entre o Brasil e o Peru. O ministro se surpreende.
-- Pensei que esse assunto ainda fosse confidencial.
Theodoro percebe que errou ao escolher o tema como introdução do que quer abordar. Em tom de cumplicidade humorada, contorna a situação.
-- Ainda é, barão. Mas não posso abster-me de cumprimentá-lo. Parabéns. Não poderia ter identificado um aliado melhor para nossas questões de fronteiras.
-- Cortês, como o pai! Mas poupe lisonjas. Apenas iniciamos as tratativas.
-- Com boas perspectivas de êxito. Afinal o Equador tem uma rixa territorial antiga com o Peru.
-- Como sempre, atento a tudo.
-- E preocupado. Penso se os melhores militares estão de fato a proteger o Acre.
-- Com base em quê diz isso?
-- Nos oficiais intermediários convocados. O capitão Herculano Dias, professor de Táticas da Escola da Praia Vermelha ficou de fora. Distinguiu-se em Canudos e tem aptidões para o diálogo.
-- Boa combinação de atributos para integrar uma ocupação militar.
-- Por isso minha lembrança e ao senhor. Temi que Argolo considerasse uma ingerência nos assuntos do seu ministério.
-- Fez bem. Falarei com o ministro acerca desse oficial.
-- Como o senhor mesmo diz, nós não podemos ser ingênuos com relação à nossa integridade territorial. A guerra entre o Japão e a Rússia é um alerta.
-- Exato. Temos de ter sempre em perspectiva a cobiça e o mapa do mundo. Com grande parte da Ásia e a África partilhada entre as potências mundiais, sobra a América Central e a do Sul. Matéria-prima de menos e população demais atiçam o desejo por terras e outras riquezas alheias.
-- Sobreviver quem puder e dominar quem puder. É a lei.
-- O mundo dos mais capazes.
Num coche mais atrás, Argolo, recém-chegado do Acre, ouve Costallat reportar sobre o discurso de Herculano e a visita de Theodoro. Revela insatisfação em saber da ingerência do secretário de governo na pasta da Escola, concorda com a ausência de punição para não pôr em risco os ânimos na Escola, porém recomenda que o Capitão Dias seja advertido quanto à inadequação do seu arroubo patriótico.
Costallat cumpre a determinação. Orienta Herculano a não deixar mais a emoção comprometer o seu comportamento militar. O Capitão, por sua vez, aproveita o ensejo para sondar o potencial conspiratório do superior.
-- O fato não se repetirá. Discursei em momento de comoção com os despejados. Não depusemos a monarquia para ampliar o privilégio de uma minoria bem nascida nem para agravar as condições de vida da maioria humilde.
-- Somos preparados para lidar com situações difíceis, Capitão. Melhor que não manche seu histórico de oficial com outra comoção.
-- Perfeitamente, senhor.

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